Sr. Ghyges - Testes da Massa

Sr. Ghyges

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Sr. Ghyges

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- Sr. Ghyges, por favor, sente-se. –  O juiz exclamou, ajeitando seus óculos escuros. Um grupo de oficiais armados veio escoltando um homem, que embora estivesse usando o terno mais caro daquela sala e tivesse um rosto aborrecente de tantas plásticas e maquiagens, estava cheio de correntes e seus guardas usavam, além de um capacete que podia ser fechado e obstruir suas visões remotamente, o crachá da prisão mais segura do mundo, operada pelo próprio Tribunal Penal Internacional. O homem foi colocado em uma cadeira no meio da sala, ao lado de seus dez advogados, todos com os olhos vendados.  

- Muito bem, agora tragam o objeto. – Ordenou o juiz. Outro grupo de oficiais apareceu, por outro corredor, empurrando uma mesa com rodinhas, coberta por um pano vermelho. Eles colocaram a mesa um pouco à frente a bancada do juiz, e então se posicionaram ao redor dos quatro cantos da mesa, com suas armas empunhadas. Usavam capacetes que os impediam de olhar para trás.

A promotora entrou na sala nesse instante, auxiliada por seu cão-guia, que foi levado até um canto da sala por um outro policial. 

Por último, entraram as testemunhas, jornalistas, e os curiosos, todos usando vendas nos olhos e sentando-se em cadeiras com grilhões.

-Muito bem, Sr. Elijah Ghyges, o senhor reivindica o direito de deixar o... – O juiz passou uma de suas mãos sobre uma folha que estava na sua mesa. - Objeto Especial, como está escrito aqui, para sua filha de dez anos, Alice Ghyges. O senhor... Tem noção do risco existente caso ele volte às mãos da sociedade, correto? - 

-Sim, meritíssimo. – Ghyges respondeu. Houve um pequeno burburinho nos fundos do tribunal, mas logo parou.

-Certo. Retirem o pano. – Exclamou o juiz. Dois guardas da mesa, sem olhar para trás, retiraram o pano vermelho, e embaixo do mesmo, repousando sob um travesseiro carmesim, estava um anel de ouro, um pouco oxidado, mas ainda brilhante. O prisioneiro, ao ver o anel, tentou se levantar e correr até o mesmo, mas as correntes e os guardas o seguraram.

-Ótimo. Agora chamem por favor a primeira pessoa que ouviremos nesta ocasião, a princesa herdeira do trono dos Países Baixos, como testemunha contrária a liberação da posse do anel à Alice Ghyges. Temos duas testemunhas de acusação e uma de defesa. – O juiz disse. A princesa entrou na sala sendo trazida por policiais, ela estava com seus olhos vendados por um lenço verde.

-Meritíssimo, as atrocidades que o Sr. Ghyges cometeu contra mim e meu povo são inenarráveis. Sequer considerar liberar a posse desse maligno objeto para qualquer outra pessoa é uma loucura. Há uma razão para que seja proibido sequer olhá-lo! – a princesa herdeira exclamou.

-Vossa alteza, poderia nos contar sua experiência com o objeto, e que tipo de atrocidade ele causou? – disse o juiz.

-O Sr. Ghyges foi por muito tempo o meu joalheiro, meritíssimo. Ele teve acesso ao meu palácio diversas vezes. Uma noite ele conseguiu invadir minha casa usando aquela aberração, matou o meu pai, o príncipe de Gales, e se passando por ele conseguiu roubar quase metade das peças na seção de museu do palácio. Ele roubou até mesmo tesouros da Companhia das Índias! –

O juiz fez uma anotação em uma folha e disse:
-Muito bem. A defesa gostaria de se pronunciar? –

-Meritíssimo, meu cliente gostaria de lembrar, que embora provas circunstanciais realmente apontem para um possível roubo de objetos antigos da realeza holandesa, o corpo do príncipe de Gales nunca foi encontrado. Além disso, no julgamento do Sr. Ghyges, a rainha da Holanda admitiu que colaborou com os roubos de objetos reais, por não gostar da vida pública e querer fugir com seu suposto marido, que era na verdade, meu cliente disfarçado. Tanto que ela está detida. Acrescento que talvez ela mesma tenha matado o marido antes do meu cliente chegar. – o advogado afirmou.

-Mentira! Ele...- O juiz interrompeu a princesa. 

-Calma! Espere um momento... – Ele tomou outra nota. -Agora sim, pode falar. –
-Minha mãe realmente colaborou, mas ela está sob influência desse maldito anel! Ela nunca faria isso, eu a conheço desde sempre! - A princesa reclamou.

-Certo. Alguma consideração final, defesa? – 

-Eu gostaria de ressaltar que não há evidências factíveis de que o anel realmente cause influência hipnótica. Os poderes dele meramente causam ilusões, coisa que mágicos e atores comuns fazem. Determinar que um pai não pode deixar uma herança para a filha por esta herança ter sido usada para motivos ominosos é algo antiético. –

A princesa tentou falar mais, mas o juiz a impediu. A princesa foi levada para fora pelos seus guardas, e a segunda testemunha de acusação entrou na sala, também vendada
-Muito bem, daremos início agora à fala da segunda testemunha contrária, o príncipe Abdul Al-Tamin, do Qatar. Alteza, por favor, diga-nos: Porque o senhor é contrário a liberação do anel como herança para Alice Ghyges? –

-Meritíssimo, é um absurdo que a legalidade do uso deste anel seja sequer ponderada. O Sr. Ghyges o usou para finalidades macabras. Eu tenho provas já reconhecidas durante a condenação de Elijah comprovando que o uso do anel está diretamente ligado ao roubo do Diamante do Golfo Pérsico, a maior riqueza da minha família.  –

-A defesa deseja se pronunciar? – perguntou o juiz.

-Sim, senhor meritíssimo. Eu gostaria de lembrar que o Diamante do Golfo Pérsico foi comprado da Bélgica pelo antigo patriarca da família Tamin, que conquistou sua fortuna por meio de trabalho escravo e ligações com potências imperialistas. – disse o advogado.
-Ora, mas o que isso tem a ver? Esse erro foi de um antepassado, não meu! Além disso, uma coisa não justifica a outra! – Reclamou o príncipe. O juiz aguardou alguns instantes antes de perguntar:
-A defesa deseja se pronunciar? – O advogado cochichou algo com Ghyges e disse que não.

-Muito bem! O príncipe Abdul pode se retirar. Agora, por favor, tragam a testemunha de defesa, o professor de direito na Oxford, PhD pela Harvard, e amigo pessoal de Ghyges, o professor Walter Duke.  O juiz exclamou. Um homem usando um óculos completamente opaco entrou na sala, escoltado por seguranças vendados. 

-Meritíssimo, eu tenho poucas coisas a dizer. O anel gera ilusões ópticas, e é incapaz de fazer dano a qualquer um. Não há nenhuma legislação que se preze em qualquer lugar do mundo proibindo artefatos que fazem ilusões ou “mágicas”, ou seja, o crime foi exclusivamente de Elijah, não do anel, e por isso não há razão alguma para prender o anel. – disse o professor.

-A promotoria pode se manifestar se quiser. – disse o juiz.

-Bom, de fato não há ainda nenhuma lei proibindo anéis que fazem ilusões de óptica, mas é absurdo que este objeto possa passar por mãos humanas novamente. No caso tivemos apenas casos de estelionato e roubo, mas e se um depravado ou uma potência militar má intencionada tivesse acesso? Não há limite para o poder deste anel, ele deve ser tratado como uma arma. –

-Bom, caso ele seja tratado como arma, nada é mais legítimo do que enviar o anel para Alice Ghyges, uma vez que ela é uma americana e a constituição americana libera a posse de armas. –

-Isso não é certo. A arma foi apreendida aqui na Holanda, o mais certo é que ela fique aqui, sob tutela do estado, ou seja destruída. A Holanda não tem porte de armas. –

-Certo, certo! – o juiz bateu seu martelo, acenou para que os policiais retirassem Walter da sala, e disse:
-Vamos dar início ao julgamento em si. Promotora Hale, por favor, nos dê suas considerações sobre o caso. – 

-Bom, eu acho que é óbvio para todos os presentes que o anel é poderoso e perigoso demais para estar em qualquer lugar que não seja um cofre no fundo do mar, lugar de onde não deveria ter sido retirado, nem sequer para este julgamento. Mesmo que seja posse do pai, ninguém deveria ter acesso a esse poder. Há uma razão para ninguém nessa sala poder sequer olhar para ele. –

-Muito bem. A defesa pode dar as suas considerações finais. –

-Meritíssimo, eu faço as palavras do professor Duke as minhas. O meu cliente cometeu o crime, não o anel. O anel não pode ser considerado uma arma, pois apenas faz ilusões ópticas inofensivas, é como se fosse uma fantasia. E mesmo se fosse, Alice Ghyges é uma cidadã dos Estados Unidos da América, onde a posse e o porte são permitidos. O anel deveria ser enviado para a filha do meu cliente. – 

O juiz se retirou da sala por cerca de meia hora e voltou pela porta principal carregando um papel. Ele se posicionou entre a mesa do anel e o prisioneiro:
-Bom, observados todos os pontos de vista apresentados, eu tomo minha decisão. Percebo que julgar o Sr. Ghygesseja um pouco hipócrita, pois praticamente todos aqui fariam o mesmo ao ter acesso à tamanho poder, e por isso estamos todos desprovidos da visão, não para que o anel não nos engane com ilusões, mas para que não queiramos tomá-lo. Tendo isto tudo em mente, declaro que o anel não pode pertencer à Alice, mas tampouco deveria ficar na tutela do estado, pois poderia ser usado pelo mesmo para finalidades incorretas. – 

Antes que qualquer um pudesse fazer qualquer coisa, pois estavam todos vendados ou cegos, o juiz agarrou o anel e desapareceu no ar.

Matheus Gamarra

Supostamente escritor, nasceu no Rio de Janeiro em 23/08/2001 e está cursando o ensino médio. Autor de "Delete"(2017)