- Testes da Massa
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SÓIS E LUAS

Estou começando a pensar que esse negócio de escrever pode, às vezes, ser uma armadilha. Você nunca sabe exatamente para qual lugar a sua cabeça vai te levar.

No caso de hoje, as minhas memórias me carregaram para uma emboscada, para o meu pior gatilho. Relutei em escrever sobre isso, porque não sei o que acontece comigo mesma depois de escrever e publicar algo assim, mas resolvi jogar a sorte. Não só por mim fiz isso, mas por todas nós.

São duas histórias, duas garotas, duas famílias, duas cidades, dois traumas e enfim: dois tudo, mas poderia tudo ser uma coisa só, de uma só pessoa, numa só família, porque embora não se conheçam, para mim elas parecem uma só pessoa, porque é assim que eu as sinto. E eu me sinto sendo elas também, então já somos três “uma só”.

Para preservar o anonimato delas, vou chama-las de Sol e de Lua, porque me falta criatividade, porque elas não se conhecem embora se pareçam, e também pelo fato de eu as ver todo dia, em diferentes corpos.

Vou começar pela Sol: quando eu a conheci, eu tinha 19 anos e trabalhava numa escola. Eu me lembro como se fosse hoje quando a vi pela primeira vez, entrando na secretaria com seu namorado, que era o dono da escola. Até aí tudo bem, se não fosse pelo fato de Sol ter 16 anos e seu namorado, 47. Com o tempo nos tornamos amigas e então soube que o casal se conheceu quando Sol foi visitar a mãe no trabalho: ela era a empregada doméstica do coroa.

O relacionamento era incentivado pelos pais e eu vi quantas vezes ela tentou abandona-lo, porque já tinha sido agredida física e emocionalmente e porque não gostava de velhos, nem com aquele monte de presentes, dados tanto a ela quanto à família dela. Quando tomou coragem e terminou o namoro, a família foi contra e pressionou-a a reatar.

Foi então que eu decidi me envolver e ajudá-la a sair de vez daquilo tudo. Parada aqui, na frente do computador, dá pra lembrar de cada gota de lágrima que a vi chorar. E eu chorei junto. Muito. E também lembro de quando a Sol, num impulso de coragem, terminou aquele namoro pela segunda vez e me pediu para levá-la para longe daquela escola e, assim que pôs os pés na rua, desmaiou.

Eu estou tentando puxar pela memória quando foi que nos distanciamos e não consigo me lembrar, mas sei que Sol estava apaixonada por um rapaz. Fiquei anos sem vê-la, mais de dez. E quando a reencontrei, ela me contou que tinha se casado, tinha filhos e havia se transformado numa fervorosa evangélica. No mesmo instante pensei: “tomara que não tenham te ofendido com algo do tipo: 'você viveu sua juventude em pecado. Arrependa-te e ganhará o amor do pai celestial’” (eu imagino o quão sedutora deve ser a proposta de ganhar outro pai que te ame e te proteja, ao invés de te forçar a prostituição aos 16 anos). Infelizmente, a confirmação dessa desconfiança veio com a afirmação “estou livre daquela vida de pecados”.

Penso que o preço de assumir a culpa por algo tão sofrido não pode trazer bons frutos. E tendo a acreditar que o brilho dos olhos dela estavam tão mais apagados, justamente por causa do peso dessa culpa. Eu queria dizer: “Você é linda e inocente. É pura e transborda doçura. Eu te conheço. Eu estava do seu lado quando tudo aquilo aconteceu. Não deixe que te façam carregar o fardo da culpa do próprio sofrimento. Retome agora mesmo aquele sorriso de criança arteira, com aquele olhar desconfiado e alegre”. Mas a verdade é que eu não falei nada. Só abracei a Sol com muito carinho e disse o quanto estava satisfeita em vê-la feliz – feliz?

Com diferença de dez anos, surgiu a Lua em minha vida. Eu a vi bebê, depois criança sapeca, que em seguida se transformou numa adolescente linda, que passou pelos horrores do racismo e do assédio, até se tornar a adulta que é hoje, com grave transtorno de humor, tendo surtos de auto agressão.

Filha de mãe branca e pai negro, eu me lembro bem quando, durante uma conversa sobre o racismo que Lua sofria na escola, sua mãe disse “minha filha não é negra, nem deveria se ofender por ser chamada de macaca”. Junto com as ofensas, vinham assédios sexuais praticados pelos colegas de sala. Quando Lua foi à diretoria reclamar de terem passado a mão nela, a diretora disse: “ah, mas esse shortinho também, ne?!”. Não deu outra: no primeiro surto, esfregou o antebraço na parece até ficar em carne viva, para arrancar “aqueles pêlos de macaca”. No segundo surto, arrancou mechas “daquele cabelo bombril”. E no terceiro, esmurrou o próprio rosto até ficar todo inchado, cheio de hematomas.

Hoje, com a doença controlada por remédios, também perdeu o sorriso de criança arteira e o olhar alegre. Virou bolsonarista fanática e admiradora de Michele Bolsonaro, mulher a quem tem como alguém que “está onde está e nunca precisou do feminismo pra nada”. Tem dificuldades de sair de casa por conta do transtorno e, por isso, sua vida social está bastante concentrada das redes sociais.

Os pais da Lua, extremamente religiosos (praticantes do catolicismo), dizem que “Deus tem um plano pra ela”. E que ela não é assim em vão, pois “nada escapa dos planos de Deus”. E eu, a única coisa que consigo pensar é que Lua aprendeu a se odiar e viu no atual governo a motivação perfeita para continuar a auto agressão, porque pessoas doentes precisam de gatilhos para o surto, porque – no fim das contas – algo precisa ser expulso do corpo e da alma.

Às vezes, quando eu a encontro, eu a abraço e beijo e ela, por um breve momento, faz olhos de quem quer ser cuidada e amparada. Na sequência, retoma o ar distante, hostil e ressentido. Às vezes acho que, com apenas 20 anos, Lua já está morta por dentro.

E por último, tem eu, Dirce, que aos trancos sobrevivi ao maldito dia em que o homem que disse que me amava como filha, jogou drogas no refrigerante que me deu e desgraçou meu corpo. Aconteceu há muitos e muitos anos, mas a verdade é que quando se passa por isso e se está desamparada, é como se seu corpo estivesse sendo espancado todos os dias e a sua alma não quisesse mais habitar nele por conta da dor.

Às vezes a alma luta pra sair, mas não há vida sem o corpo, então a alma volta mesmo com o sofrimento. Tem também os momentos em que a alma te força a acabar com o corpo, porque o fim de tudo é mais razoável do que as coisas como estão naquele momento.

Assim eu vivi até que o momento que quis e pude me tratar. Foi então que pude entender o que sou eu, o que é o meu corpo e o que foi a violação dele. Muitos e muitos anos depois, consegui separar o corpo da violação sofrida pelo corpo. E então consegui enfim me amar e aceitar amor. Consegui olhar no espelho e ver a Dirce, e não o que fizeram com ela.

Mas eu tenho muitas recaídas, tenho que confessar. E essas recaídas se dão em dias como hoje, em que lembro da Lua e da Sol, porque nossas dores e nossas histórias, de tão parecidas, são como uma só.

Alguém deveria fazer alguma analogia entre os santos que viveram o milagre de receber as chagas de Cristo e as mulheres que vivem a própria desgraça de novo, quando vêem outra mulher vivendo o horror da violação do corpo. O nome da chaga seria: gatilho.

E só de pensar o tanto de vezes mais que eu vi e verei sóis e luas em minha vida, eu fico exausta. Eu já as vi quando ajudei a fugir do pai que queria matá-las, já as vi indo morar na rua aos 11 anos porque eram estupradas pelo avô, já as vi tentando o suicídio e tantas vezes mais.

Peço que entendam todas: a nossa história é uma só e, ao menos que todas nós estejamos a salvo, nenhuma de nós está a salvo.

Dona Dirce

Tenho altas fita pra contar.