Mourão Urach ou a Arte de ser vice e ofuscar o titular #MOURACH - Testes da Massa

Mourão Urach ou a Arte de ser vice e ofuscar o titular #MOURACH

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AVISO LEGAL: Este texto não tem a menor pretensão de ser uma ode ao Hamilton Mourão. Nem pretende incutir em você a menor simpatia por ele, muito menos motivá-lo a ir às ruas pedir por mais uma ruptura em nossa democracia.  Quem o escreve não se esqueceu de suas declarações intragáveis a respeito de LGBTs, mulheres, negros, direitos trabalhistas e Ditadura Militar. Muito menos a nomeação do filho a um cargo de confiança do Banco do Brasil. Se você começar a espumar lendo alguma linha abaixo, tome um copo d’água e suba novamente para ler isso aqui.

Permisão para falar? Já viso que é chorume.

Você já ouviu falar de Andressa Urach em algum momento. Como concorrente do Miss Bumbum, participante do A Fazenda, em seu drama médico devido a aplicação de hidrogel nas  coxas (com repercussão internacional e levantando um sério debate sobre a tirania da beleza), ou em seu período de conversão à Igreja Universal, descrito na biografia Morri Para Viver - Meu Submundo de Fama, Prostituição e Drogas.

O que se perde em meio a isso tudo é o fato de Andressa Urach não ser a vencedora do concurso-empreendimento de Cacau Oliver na edição 2012, como aparenta ser. Após ser desbancada por uma concorrente chamada Carine Felizardo, de quem você nunca ouviu falar, a ambição da “Old Urach” a fez lançar sabotagens como publicar foto nua logo após a derrota, e a até unir forças com a terceira colocada e forjar um romance midiático lésbico, com direito a paparazzi contratado. Assim, todos os flashes e holofotes da imprensa especializada e as atenções de quem dá importância a esse tipo de bobagem se voltaram para ela. Usando a mídia em seu favor, Carine caiu no esquecimento. Já Andressa, decolou como um torpedo. O resto é história.

Percebe a semelhança com algo recorrente?

Jair Bolsonaro foi eleito, recebeu a faixa, já levou sua mudança ao Palácio do Planalto, mas ainda não parece entender o seu papel como presidente do país.  Sua falta de modos diante do contraditório não é recente. Envernizada como autenticidade, ela foi inclusive um dos grandes motores de sua campanha contra o espantalho do “politicamente correto”. Durante o período eleitoral, sua campanha foi marcada por discursos inflamados contra a oposição, a imprensa e todos aqueles que fossem vistos como inimigos do Brasil. Essa visão maniqueísta de mundo foi servida em doses de notícias falsas e meias verdades, e digerida com diversos graus de intensidade por seus seguidores. O fato é que seus seguidores mais radicais, os Bolsominions, não só concordam com esse comportamento, como também o imitam.

Contudo, esperava-se que passado o ébrio do pleito os ânimos se acalmassem, e uma postura conciliatória - que não seria um favor, mas nada além da obrigação de um chefe de estado – fosse adotada pelo lado vencedor. Isso não aconteceu. Os ataques, principalmente contra a imprensa, continuaram e com direito a certidão de óbito da Folha de São Paulo em rede nacional, além de ameaças de cortes de mamatas de veículos de comunicação supostamente sustentados por verba pública. Obviamente, são delírios que ignoram contextos como a Folha de São Paulo ser parte do Grupo Folha, que também detém o Grupo UOL – apenas o maior portal de conteúdo online do país e que gere operações de crédito através do PagSeguro. O Grupo Globo, o maior conglomerado de mídia da América Latina e dono da segunda maior emissora de TV do mundo, dispensa comentários. É preciso estar em surto crônico para acreditar que os anos de gestão petista renderam rios de dinheiro aos cofres da Folha e TV Globo.

Talvez o ápice do despreparo para lidar com a imprensa veio no dia da posse, marcada pela escolta e confinamento de jornalistas por horas, com direito a paranóia sobre maçãs envenenadas, sem qualquer estrutura básica, como assentos ou acesso livre ao banheiro. Digo, caso aplicado apenas e a maldita imprensa, que ousa fazer perguntas que ele não deseja responder. Para a imprensa amiga, o acesso livre foi garantido. O caso claramente revanchista animou o fã clube, mas deixou bem claro que a campanha continuava firme e forte. Sem trégua. Para complicar a situação, a sua prole e influenciadores nas mídias digitais continuam alimentando um ambiente ácido, com direito a retuites oficiais de contas parodiando jornalistas e veículos de imprensa. A prática foi tão sem freio que acaba causando momentos de humor involuntário, como os falsos cognatos espanhóis oprimindo Eduardo Bolsonaro.

E no meio do Brasil Naufrágio com ministros exóticos, filhos envolvidos em escândalos ou falando pelos cotovelos, surge uma aparente bote de sensatez. O General Mourão. Ele mesmo, o General que tem em Ustra um herói Mourão.

Mourão nunca foi dado as lacrações bolsonaristas, como já deixou claro em julho de 2018, antes do período eleitoral, classificando o radicalismo bolsominion como “meio boçal”. Após as eleições, ainda durante a transição, questionado sobre as negociações entre Brasil e China – polêmica anacrônica que resultou em crise na Direita Xucra – Mourão declarou que a retórica do Bolsonaro não concorda com a realidade.

Novamente sendo a voz mais sensata do governo simplesmente por falar o óbvio, tratou com cautela a questão da embaixada brasileira em Jerusalém, empreitada puramente ideológica defendida por nosso presidente da república simplesmente porque sim, que põe em risco a nossa economia, trazendo prejuízos às exportações de corte halal e outros produtos consumidos pelo mundo árabe. Os mais alarmistas apontam que a decisão pode nos colocar no mapa do terrorismo islâmico, o que também não pode ser descartado. Enquanto o nosso presidente já anunciou intenção através de tweet como um de seus primeiros atos oficiais, e o filho Deputado Chanceler já declarou até mesmo para Casa Branca que não se trata de se, mas de quando, posição também confirmada pelo próprio primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, Mourão  afirma que o Brasil não pensa em mudar “por enquanto” a embaixada para Jerusalém, em posição dada ao embaixador da Palestina.  Ele classificou a ideia de jerico como apenas uma promessa de campanha, ressaltou que a decisão final cabe ao titular, mas é evidente o cisma entre um bloco que requer pragmatismo e um puramente ideológico.

Ainda sobre a diplomacia cem por cento ideológica do bolsonarismo, Mourão foi categórico em afirmar sobre o Itamaraty Olavista: "Vai todo mundo virar israelense desde criancinha? Vai todo mundo virar fã dos americanos de qualquer jeito? A diplomacia são métodos e objetivos, não um fim. É preciso inserir conceitos claros, não interferir em assuntos de outros países”. Aquecimento global? Para o Mourão, diferente de Olavo, Ernesto e Eduardo Bolsonaro, é um fato.  Novamente, mais uma constatação do óbvio e nada além disso, mas que reluz como uma pérola em um oceano de chorume. Um militar da mais alta patente, treinado para o combate e intermediar conflitos, sabe melhor do que ninguém o que é um gigante de fato e o que é simplesmente um moinho de narrativa quixotesca antiglobalista. E por ele mesmo ser um general, ele sabe que a flexibilização da posse de armas não é solução contra a crise de segurança pública.

Seu maior destaque, no entanto, vem de explorar a maior falha de Jair: o seu tratamento com a imprensa. Questionado sobre as irregularidades do caso Flávio Bolsonaro, Mourão ressaltou a máxima do Jornalismo: FURUNGAR. No mesmo dia em que Bolsonaro publicou uma provocação tosca à imprensa internacional em seu Twitter, mais cedo Mourão tuitou um afago em agradecimento aos profissionais que acompanharam a sua agenda do dia.





Ao contrário de Bolsonaro, um péssimo orador, Mourão é articulado. O Capitão foge de perguntas que saiam da sua cartilha ideológica e teme o enquadramento de jornalistas, enquanto Mourão namora com as câmeras sem permitir intimidação. Não que intimidar seja o papel elementar da Imprensa,, mas ele aparenta entender que no campo de batalha midiático a função do jornalista é ser a oposição que fiscaliza e critica, e ele (no papel do estado) que se defenda da melhor forma possível.

Mourão explora a falha do Capitão e usa a mídia de forma brilhante, como Andressa fez com o Miss Bumbum, e a imprensa já o trata como mais paciente, mais afável, mais apto a lidar com os jornalistas, não lhe poupando adjetivos.O apelido General Mozão parece ter vindo para ficar, ao menos entre os que cobrem sua agenda no eixo Rio-Sampa-BSB.  Enquanto Bolsonaro considerou ainda estar em campanha em Davos, julgando aceitável mentir para o Washington Post sobre uma declaração embaraçosa registrada em vídeo, ser clicado almoçando em um bandejão suíço e fugir de uma coletiva com os seus ministros despreparados,  Mourão aproveitou o seu tempo curto para tomar os holofotes e a atenção de quem dá importância a esse tipo de “bobagem”. Mas, diferente do caso Andressa e Carine, aqui a importância não é dada por meros entusiastas do mundo das subcelebridades, e sim investidores, empresários, a mídia especializada, eleitores da situação e até mesmo da oposição.

Verdade seja dita: o Mourão nunca almejou ficar em segundo plano. Outra verdade incômoda: mesmo com suas opiniões no mínimo equivocadas, alguém que alcança a patente mais alta do Exército pode ser diversas coisas, menos burro. Há evidentemente uma ruptura de estilos entre presidente e vice, e um jogo de poder que já incomoda o Capitão e sua trupe. Reforço: nenhuma ação do Mourão é extraordinária, mas diante do hospício-curral Bolsonarista, parecem os mais belos botões de rosa desabrochando em um aterro de lixo nuclear.

 Se elas causaram espécie na “Esquerda” (e como Esquerda entenda toda e qualquer pessoa que não abriu concessões à extrema-direita para alcançar o poder), o chorume bolsominion escorreu das redes sociais até alcançar o topo da pirâmide do Faraó de Pinheiros: Olavo de Carvalho, o próprio “guru de merda nenhuma” chegou a gravar um vídeo se queixando da nota genérica emitida por Mourão sobre o caso de Jean Wyllys, enquanto ele mesmo não recebia afagos do General, em suas palavras, sendo vítima da maior campanha de difamação da história humana.

 Destaque-se que o bloco olavista no governo consegue ser o mais propenso ao desastre, o mais desajeitado, o mais deslocado no tempo. E se o mimimi do líder do curso-seita prova algo, é que o comportamento de Mourão, diante de todo o hospício, é o mais assertivo. Até mesmo Silas Malafaia, representante da ala evangélica bolsonarista, aparentou incomodar-se com suas declarações e atenção dada a elas pela imprensa.

 Os mais alarmistas atentam para um golpe em curso, os maquiavélicos para um jogo sincronizado entre tira bom e tira mau. Para garantir o meu sono tranquilo, gosto de pensar em algo meio House of Cards, mas também  zelo pela própria reputação movido pela vaidade. Assim como Andressa, seu nome será lembrado com mais prestígio, carinho e respeito que o de Jair? Só o tempo dirá os passos a serem seguidos por Mourão Urach.  Mas adianto que são tempos difíceis onde o máximo de sensatez e protocolo político é visto no político militar neófito do partido do Aerotrem.

 Se bem que por outro lado, embora o esforço para se tornar um contraponto cause espanto na Direita Xucra e nas esquerdas, ele mesmo deixa escapar falas que nos fazem lembrar do antigo Mourão. Instantes antes de finalizar esse texto, Mourão negou a Ditadura, ventilando um futuro revisionismo histórico do período. Mozão, mas não muito. Moderado com moderação. Uma sensatez light. Cautela, gente!

Que fase.

SUPREME do COVENJMA, age sob influência de Tyler Durden e Bonnie Tyler, Marylin Monroe e Maria Mulambo. No Caixa de Pássaros Brasil, olhou para o monstro e sorriu. Gosta de democracia, humor esquisito e bebidas baratas em copos finos.

Convidado

A Testes da Massa traz eventualmente convidados com ótimos textos, para agregar ao nosso site.