Janeiro foi o mês das mulheres - Testes da Massa

Janeiro foi o mês das mulheres

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Já faz algum tempo que venho conversando sobre política e mobilização social por aí.

Se a conversa é feita em um grupo que majoritariamente tem homens, em geral reflexões sobre tensionamento político, avanço do neoliberalismo e do conservadorismo se impõe – assim como questionamentos sobre como podemos reagir para conter os retrocessos. Mas se estou em uma conversa em que as mulheres são a maioria, minha impressão é que esses temas são abordados e formulados em uma ótica mais ampla; na qual as articulações sobre os recortes de raça, gênero, sexualidade e classe social se impõe e entrelaçam, produzindo análises e formas de ação concretas e inclusivas.

Não estou aqui (ao menos nesse texto) para questionar essa diferença, mas sim trazer algo que eu acho bem interessante: como são as mulheres que estão promovendo reações a escalada do backlash conservador e religioso em escala nacional (quem não se lembra da Primavera da Mulheres em 2015, contra Cunha e a favor do aborto legal; assim como do #EleNão ano passado) e internacional (as mobilizações em torno do #NiUnaMenos em 2016 e do #MeToo em 2017/2018 por exemplo).

Somente nesse primeiro mês de 2019 já tivemos a Women’s March nos EUA, celebrando o inédito aumento de mulheres no Congresso, com mais de 100 representantes (inclusive com a eleição das primeiras congressistas muçulmanas e indígenas) e protestando contra as políticas de Trump. Tivemos também a Women’s Wave em diversas cidades do continente africano, como em Lagos (Nigéria) produzida por militantes feministas cristãs que reivindicam o acesso a saúde sexual e o aborto. Além disso, a Espanha promoveu protestos massivos chamados por coletivos e movimentos feministas e LGBT’s contra o machismo e a ameaça de ataques aos direitos de minorias. E não podemos esquecer que foi na Angola (no dia 24/01) a primeira vitória do movimento de mulheres e feminista desse ano, que conseguiu após muita luta a legalização do aborto em casos de estupro e risco de vida da gestante e do feto.

No Brasil, a articulação vem sendo construída por uma rede de coletivos e movimentos de mulheres e feministas, que esperam não somente impulsionar um novo impacto sobre as demandas das mulheres – reagindo a feminização da pobreza a ser promovida pela Reforma da Previdência e também ao absurdo número de feminicídios ocorridos diariamente no país –, mas principalmente se colocando como protagonistas no embate contra essas forças conservadoras e religiosas, que não acreditam nas mulheres na política (afinal, a Damares nada mais é do que um fantoche desse posicionamento).

A Rosana Pinheiro Machado tem um texto que analisa como a extrema-direita venceu, mas que as feministas também. E isso ocorre justamente devido a politização das mulheres, que vem sendo cada vez maior entre as adolescentes e que poderá mudar o modo como a política é realizada futuramente. A Daniela Lima fez um comentário sobre o texto, destacando a importância de se compreender que o feminismo na verdade perdeu, já que temos um governo de extrema-direita no poder; e o importante agora é nos reorganizarmos para resistir aos retrocessos.

Eu compreendo os dois pontos de vista e penso que ambas estão corretas de determinadas maneiras. É impossível conversar com um grupo de meninas adolescentes e não ver como o feminismo está presente no cotidiano delas (algo que 15 anos atrás, na minha adolescência não era nem discutido) e que isso com certeza irá impulsionar mudanças nas estruturas sociais – e políticas! – nos próximos anos. Porém, a conjuntura que vivemos atualmente também torna impossível não pensar na urgente necessidade de se formular uma nova forma de articulação e resistência frente a onda neoliberal/conservadora/religiosa que se espalha pelo Brasil.

Resiliência e organização da sociedade civil devem ser as metas a serem promovidas no nosso futuro. E nisso, as mulheres estão tomando a frente na luta.


Aline Coutinho

Historiadora e feminista, é viciada em samba, maratonas no Netflix, "Irmãos à obra" e política - e espera escrever um pouco desses assuntos por aqui.