Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! - Testes da Massa

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar!

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Não é hora de sacanear, temos um inimigos em comum

A boa matéria da repórter Lola Ferreira para o Uol no fim do mês passado me deixou alerta. Chega o fim do ano e eu já me preparo para a batalha de narrativas que vou travar nas redes sociais até o Carnaval acabar. De um lado do ringue, com calça branca e chapéu panamá estou eu, pesquisador apaixonado por escolas de samba. Torço para todas. Do outro lado, com trompete nos ombros e barba purpurinada, uma tropa de amantes dos blocos contemporâneos defendendo que eles, sim, são a cara da folia moderna. É o movimento chamado de neofanfarra. Quem não gosta de escola de samba apela para o argumento já batido, mas infelizmente ainda válido, da relação promíscua com o jogo do bicho. Aceito o golpe. Quem não gosta das fanfarras, como eu, joga na cara que aquilo é a definição da esquerda burguesa cirandeira. Fim do primeiro assalto, dois perdedores.



A questão é que enquanto os apaixonados por Carnaval expõem as suas feridas, os fundamentalistas neo pentecostais ganham de bandeja um monte de motivos para criticar a festa. Marcelo Crivella está no seu gabinete, agora mesmo, pesquisando como vai prejudicar a maior potência cultural do Brasil. Primeiro, corta a verba das escolas de samba. Depois, impõe restrições ridículas aos blocos, como a obrigatoriedade de uma ambulância - coisa que nem tem nos hospitais direito. Crivella não distingue fanfarra, bloco e agremiação de samba. Tudo o que parece felicidade, para ele é maldito.

Barbudos de chita, malandros de terno, baianas, feministas, Amigos da Onça e do Bafo da Onça: é preciso união. Fevereiro chegou e temos um mês para curtir as ruas coloridas e lotadas de gente feliz. O Carnaval já está na metade, e quando começa é porque está no fim. No último final de semana, dezenas de blocos já foram às ruas. Tem para todos os gostos: Agytoê e Tambores de Olokun para a galera bicho grilo, feijoada do Bola Preta para os tradicionais, Afoxé Filhos de Ghandi para saudar Iemanjá. Durante a semana, ensaios de rua das escolas de samba vão tomar as avenidas e substituir engarrafamento por gente. Só na quinta-feira tem Vila Isabel, Mangueira e Salgueiro, num pedaço da cidade que chega a tremer o chão de tanta tradição.

Vamos lacrar menos e suspender a realidade até o fim do Carnaval. Quando o outono chegar a gente problematiza a vida, os blocos hipsters e as escolas de samba canalhas. Agora, somos irmãos de folia. É o mês de fingir que trabalha enquanto pensa naquela cerveja de milho gelada. Carnavalizar o mundo contra a reaçada, tamo aí! Nem que para isso precise cirandar. Às ruas, povão!

Para a primeira semana de fevereiro

Iemanjá_foi celebrada pelo Brasil afora no último sábado, dia 2 de fevereiro. A mãe das águas, peixes e homens é a mais famosa dos orixás do candomblé, mas muito pelo racismo. Ela é a única orixá naturalmente pintada com a cor branca, sabe-se lá o motivo. O artigo não é recente, mas esclarecedor (empretecedor!). Gildeci de Oliveira Leite, professor da Universidade Federal da Bahia, dá seu pitaco e bate o martelo: Iemanjá é negra.

Contradição_é uma das marcas do Carnaval. O site Sambarazzo, especializado nas escolas de samba do Rio, encontrou uma preciosidade: o escultor do boneco que ilustra a coluna desta semana (o Crivella endiabrado) é evangélico e fã das músicas do pastor/cantor/prefeito. A alegoria virá no último setor da Acadêmicos do Sossego, escola de Niterói (!), que desfila pela Série A (antigo Grupo de Acesso).

Transar_não é coisa da nossa geração, talvez muito pelo contrário. A história do quadrinista Carlos Zéfiro (Alcides Caminha) é maravilhosa e bem contada na VICE Brasil. Ele era autor de gibis de pornografia que atiçavam a imaginação da rapaziada bem antes das famosas Sexys e Playboys. Na época dos nossos avós é que era preciso ter força de vontade e imaginação. Essa entrevista para o Jô Soares é igualmente ótima.

Yuri E.

Jornalista carioca, foi colaborador de veículos como VICE Brasil, The Intercept Brasil e revista piauí. Atualmente, é repórter no jornal Meia Hora.