Uma Crônica do Ancapistão - Testes da Massa

Uma Crônica do Ancapistão

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 Matheus Gamarra

///01/13/09
Era o dia um de trezembro do ano nove depois da revolução anarcocapitalista. O mês de trezembro havia sido implementado para justificar a existência de um décimo terceiro salário e compensar o fim das férias. Assim os trabalhadores ganhavam mais e trabalhavam mais.

Wilson Reynall não lembrava mais o dia exato no calendário antigo em que o Estado havia deixado de existir. Lembrava que fora por volta do segundo semestre de 2016, mas não lembrava mais a data exata.

Ele respirou fundo. Talvez fosse nostalgia, mas sentia um pouco de falta de como tudo era antigamente. As lembranças dele na escola com seus amigos, de visitar seus avós no interior, participando com seus pais de campanhas beneficentes para a Igreja...

 Ele afastou os pensamentos de sua cabeça, era o começo de mais um dia de trabalho, e a última coisa que precisava era de devaneios com um passado distante. Reynall tomou um café sem açúcar e riscou rapidamente um X no calendário preso a parede. Faltavam apenas três dias para receber seu salário em M0BACOIN. Era a criptomoeda da corporação que trabalhava. E vivia. Toda a cidade havia sido comprada pela megacorporação sul-coreana M0BA há sete anos antes.

Wilson colocou o seu uniforme (que ele mesmo comprara para poder trabalhar lá), um macacão com a logo da M0BA e diversas outras logos estampadas, das empresas patrocinadoras, como a FetsiCola e a Mon-Zanto, e então foi até a porta, destravando as oito fechaduras, saindo, e então as trancando por fora. Caminhou pelo túnel, repleto de portas de outros apartamentos, colocando a mão no rosto para não tossir por conta da fumaça dos caminhões de carga da M0BA que passavam a menos de um metro dele. Enquanto seguia pela lateral do túnel, fez cálculos mentais. Iria receber por volta de 30 M0BACOINS. O aluguel da casa era 10. O serviço de segurança era 15.  Com sorte sobrariam umas cinco M0BACOINS, que dariam para continuar assinando o FOODFLIX, que entregava comida para ele três vezes por semana e custava 2 M0BACOINS e o serviço de Internet, mesmo que com limite de 150MB por ser um dos pacotes mais baratos, e talvez sobraria ainda meio M0BACOIN, que ele poderia investir em alguma outra criptomoeda.

Reynall saiu do túnel, dirigindo-se pelas ruas de destroços, lixo e mendigos leprosos. Nos seus arredores, prédios e casas ou abandonados ou convertidos em fortalezas  com muros enormes. O dia estava lindo, o céu estava até um pouco cinza-escuro. O comum era ficar marrom e até mesmo preto nos piores dias.

-Senhor, por favor! Você poderia me ajudar com um bitcoin?- uma mulher carregando um bebê no colo exclamou, saindo do meio de um conjunto de latões de lixo.

-Não tenho culpa se você não trabalha, senhora...- Wilson respondeu, olhando a moça com desprezo. Ele já ia se preparar para seguir seu caminho quando ela disse:

-Wilson?- ao ouvir isso, ele travou. O nome estampado em seu uniforme era Funcionário9251012. Ele se virou de novo para a mulher, e agora prestou mais atenção.

-Amelia...- ele ficou de queixo caído. Aquela era a cuidadora de idosos que passara anos atendendo sua avó na Clínica Privada da Britanic Petroleum. Quer dizer, até a sua avó morrer após ingerir uma carne experimental da linha de produtos bovinos transgênicos da GBS, que na verdade era papelão adocicado em molho de carne sintética e nicotina. -Me desculpe, Amelia, eu não te reconheci... Como você chegou neste estad.. Nessa situação?

-Eu precisei atender um idoso de família rica... E o sobrinho dele ficou obcecado por mim... Ele contratou mercenários que me raptaram... E... Ele... Ele meio que... Ele me violentou. Eu acabei ficando grávida, e aí a clínica me demitiu.

-Meu deus...

-E como eu era mãe solteira, nenhuma empresa quis me contratar. Tentei processar ele em um tribunal privado, mas não tenho dinheiro pra isso. Então acabei vindo parar aqui com minha filha.

-Mas você pode sair disso! Escuta, você e sua filha tem dois rins que podem vender. É só ir em alguma clínica e vocês ganhariam no mínimo uns 5 bitcoins.

-Eu pensei em fazer isso, mas todas as clínicas da região foram compradas pela Britanica Petroleum. E devido a eu ter sido funcionária deles, não posso fazer o procedimento lá. Pensei em fazer o procedimento com um açougueiro, mas os que faziam foram presos pelo tribunal privado da Ninventro por desvio de finalidade comercial

-Eles não tentaram contratar um outro tribunal pra disputar com a Ninventro a liberdade deles?

-Os únicos permitidos em terras da M0BA são os da Ninventro. Eles também não têm como pedir ajuda para algum de fora, porque a prisão não dá acesso à meios de comunicação externos.

-Amelia, acho que já sei o que você pode fazer. Acho que se você fizer uma petição online para arrecadar fundos, poderão te ajudar a...- ela o interrompeu:

-Como? Eu não tenho dinheiro pra pagar Internet.

-Talvez então abordando as pessoas que nem você fez agora comigo você consiga, então.

-Wilson, quanto dinheiro você vai me dar?

-Amelia, eu... Me desculpe, eu estou sem dinheiro.

-Exato. Ninguém tem dinheiro pra si mesmo, vão ter pra mim? Vou falar a verdade. Era tudo melhor antes da revolução.

-Você está maluca? Antes da revolução vivíamos sob a mercê opressiva do estado. Agora nós somos todos livres. Não precisamos pagar impostos! É tudo muito melhor!

-O estado não era tão ruim assim, Reynall.

-Burocratas corruptos nos obrigavam a tolerarmos roubos do nosso dinheiro conseguido com suor e não entregavam nada além de opressão e ineficiência. Você é gado do sistema superado, Amelia. É por isso que ninguém te ajuda. – ele seguiu seu caminho.

-Espere! Wilson!- ela correu atrás dele e o segurou pelo braço.

-Eu não te devo nada, mulher!- ele respondeu.

-Por favor, minha filha está com fome... Nem que seja só dois centésimos de Bitcoin.

-Segurança!- ele gritou, se soltando bruscamente e fazendo com que ela quase caísse no chão. Um segurança armado veio correndo de seu posto na outra parte da rua e apontou sua arma para Amelia:
-NO CHÃO! VOCÊ VIOLOU O PNA DESTE CIDADÃO! -  ela obedeceu, colocando a criança ao seu lado e deitando de costas.  O oficial continuou:

-Você será levada ao tribunal privado mais próximo e poderá pagar um advogado se quiser para te defender. A criança será confiscada pela M0BA, mas você poderá a readquirir pagando uma taxa de 8 M0BACOINS em até três dias, ou ela será vendida na Central Comercial de Crianças.

Wilson se afastou enquanto Amelia era algemada e o bebê era colocado em um cesto pelo guarda.
///
Após uma longa caminhada pela cidade, Wilson Reynall chegou ao prédio no qual trabalhava. A CCI-M0BA-341. Ou, a 341a  central regional de informações da M0BA. Ali ficavam localizados os satélites e retransmissores que permitiam o acesso à Internet, e os mainframes que armazenavam dados sobre os funcionários e informações similares da região.

-Até que enfim você chegou, Funcionário 9251012. Estamos com um problema no Andar -5. Parece que houve uma infiltração de água em um dos mainframes. – disse o recepcionista, enquanto mantinha um sorriso fixo. Era vedado aos recepcionistas deixarem de sorrir.

-Tá, eu resolvo. Só me deixa pegar meu equipamento. – Wilson respondeu, passando pela recepção confortável e arrumada, com pelo menos dois faxineiros robóticos, e indo até a entrada de funcionários. Entrou e fechou a porta, seguindo agora por um vestiário com paredes de tijolos, iluminada por lâmpadas tão velhas que piscavam e repleto de pessoas se arrumando e indo para seus postos.  Foi até um almoxarifado no canto e pegou sua maleta de trabalho, onde dentro estavam seus equipamentos. Em seguida foi marcar sua presença em uma máquina na parede.

- Funcionário 9251012, você chegou cinco minutos depois do horário definido pelo seu contrato. Você deverá ficar vinte minutos a mais para compensar hoje ao fim de seu expediente. Reincidência no atraso resultará em punição física. – disse a voz robótica da máquina. Reynall respirou fundo e foi até um dos elevadores para os níveis subterrâneos.

///
Após uma longa descida, Wilson entrou finalmente no andar em que estavam ocorrendo os vazamentos. A água invadiu o elevador enquanto ele saia. Já chegava em sua cintura. A água era extremamente gelada, pois era usada em “aquários” específicos próximos aos computadores para evitar superaquecimentos. Além disso, o andar era extremamente escuro, pois a iluminação aqueceria os computadores. Ele abriu a maleta, colocou um capacete com lanterna, e foi até o buraco no aquário em que havia água vazando. Passou por volta de três horas o consertando, e então ligou para a recepção para que os ralos de drenagem fossem ativados. Por sorte a água não entrara em nenhum dos mainframes.

-Sim, vou iniciar o processo de drenagem agora. Ah, Funcionário 9251012, você foi convocado na Secretaria de RH. É no andar 12. – o outro lado desligou.

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Reynall entrou no andar da Secretaria de RH nervoso. Será que havia sido demitido por chegar atrasado? Sentou-se em uma sala de espera e esperou por algum tempo, até que uma porta de um dos escritórios se abriu e uma mulher de terno apareceu chamando o Funcionário 9251012.

-Oi, porque vocês me chamaram? -  ele disse, enquanto entrava no escritório. O local era relativamente agradável. Havia uma janela com persianas fechadas, um sofá, uma escrivaninha com computador, alguns armários e ficheiros e em uma das paredes uma bandeira com o símbolo da cobra de Gadsden pendurada.

- Funcionário 9251012, para fins de armazenamento de dados, responda às minhas perguntas por favor. Nossas câmeras e microfones informam que você encontrou a  ex-enfermeira criminosa Amelia Ermagham hoje de manhã, certo?

-Sim. Eu denunciei ela, ela feriu meu PNA.

-Correto...- a moça teclou por alguns segundos. – A primeira coisa que o senhor fez hoje na empresa foi ir averiguar um problema em um dos Mainframes do Andar -5, certo?

-Sim, estava havendo um vazamento de água lá.

-Muito bem... - ela teclou mais algo. – O senhor está demitido. Aquele era o andar em que eram processadas as informações dos tribunais privados desta região da Ninventro, que aluga nossos servidores. De acordo com o artigo 90.315 do seu contrato, mexer naquele andar configura contaminação de informação por testemunha ou participante em ferimento do PNA. O que resulta em demissão imediata e fim de concessão de serviços pela M0BA.

-Espera, mas a minha residência é uma propriedade da M0BA que alugo. Meu serviço de segurança, comida e Internet são terceirizações da M0BA. Até o pedágio para sair da cidade é da M0BA.

-Sim, o senhor já perdeu acesso a eles.

-Mas... Eu não vou nem sequer ser ressarcido? O aluguel até o dia 5 já está pago.

-Não, o não-ressarcimento está incluso no contrato. A segurança já está desocupando sua casa. O contrato também prevê que posses lá deixadas, por estarem em propriedade privada, serão confiscadas pela empresa, e devolvidas se o senhor as comprar de volta na Central de Confiscos Regional da M0BA. Por favor, deixe a maleta de equipamentos na Recepção.

-Eu... Eu... – Nesse momento seguranças entraram, o levantaram pelos ombros e o escoltaram até a saída.

///01/01/10
Jogado em um lixão em um beco escuro e esquecido de uma rua, Wilson vasculhava a sujeira em busca de comida. Ainda usava o macacão da M0BA, embora agora o mesmo estivesse irreconhecível. Era a única roupa que lhe restava. Ouviu explosões, e voltou seus olhos assustados para o alto. Fogos de artifício estouravam no céu quase opaco pela poluição da noite.  Podia ver e ouvir, dentro dos prédios e corporações que não estavam vazios, abandonados ou tomados por mendigos, pessoas comemorando. Quanto mais alto o prédio, maior a comemoração. Era a comemoração de dez anos de Anarcocapitalismo.

-Não vai comemorar? - uma voz familiar perguntou. Ele voltou seus olhos para quem havia dito aquilo.

- Amelia? – Ele a reconheceu imediatamente. Ela estava sem o bebê, mas carregava algo na mão, e usava um tapa-olho. Uma de suas pernas estava muito estranha.

-Foi difícil te encontrar. – Ela começou a se aproximar, caminhando com dificuldade.

-Você não estava presa? – ele perguntou, já se preparando para lutar ou fugir.

-O juiz disse que eu poderia ser perdoada se lutasse por 15 dias na Guerra Empresarial da Coréia. Você sabe, aquela entre a Ninventro e a Zangzung, em que as duas falaram que a outra violou o PNA e começaram a lutar. Eu lutei. E como não tinha dinheiro para comprar equipamento, aconteceu isso. 

– ela acendeu uma lanterna pendurada na sua roupa, revelando que estava com um pedaço de madeira no lugar da perna e repleta de cicatrizes por todo o corpo. E a luz mostrou algo mais. Ela segurava um revólver da Ninventro em uma das mãos.

-Amelia, Amelia, por favor...- Ele recuou, colocando as mãos para cima. Olhou ao redor, procurando algo que pudesse usar como arma.

-Mas mesmo sem perna eu continuei lutando. E aí minha pena foi anulada. E agora, como eu não era mais mãe solteira e havia perdido uma perna, foi fácil conseguir um emprego temporário na Associação dos Pedintes e Mendigos de Seoul. E como lá as clínicas são do Vazebook, consegui muito dinheiro vendendo meus ovários, meu olho e meu rim. E aí comprei um voo de volta para cá, só pra poder fazer isso... – ela ergueu o revólver e atirou. A bala perfurou a barriga de Reynall, mas ele sobreviveu, e saiu correndo.

-Volta aqui! – ela gritou, tentando acertá-lo enquanto ele fugia, mas agora errando. Ele correu até um posto de guarda na esquina, onde um segurança armado estava sentado bebendo um café.

-Segurança! Essa mulher quer me matar! - Wilson exclamou, enquanto tentava cobrir a ferida com a mão. O guarda pegou um aparelho e escaneou rapidamente o rosto do ferido.

-Sinto muito, senhor, mas você não é um assinante do nosso serviço de segurança. Não posso fazer nada. –
- Mas... Mas... – ele ouviu outro disparo, e então caiu no chão. Ela havia acertado sua perna. Amelia se aproximou desajeitadamente com o revólver empunhado, e então atirou nas mãos e pés de Reynall.

- Me mata logo...- ele agonizou.

- Não. – ela guardou a arma no coldre, tirou uma mochila das costas e a abriu. – Quero manter seus órgãos o mais frescos possível para quando for vender. – Amelia afirmou, enquanto retirava uma bolsa cirúrgica impermeável e um bisturi da mochila.


Matheus Gamarra, supostamente escritor, nasceu no Rio de Janeiro em 23/08/2001 e está cursando o ensino médio. Autor de "Delete"(2017)

Convidado

A Testes da Massa traz eventualmente convidados com ótimos textos, para agregar ao nosso site.