"Tropa de Elite" e a estética fascista brasileira - Testes da Massa

"Tropa de Elite" e a estética fascista brasileira

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Tem algum tempo que não só eu, mas boa parte da esquerda brasileira vem refletindo a respeito da influência nefasta que o filme “Tropa de Elite” fez no senso comum do brasileiro médio. É inegável que ali começa uma escalada do processo de recrudescimento popular em relação não só à criminalidade, mas também à esquerda e qualquer elemento que possa ser lido como “fora da ordem”. Ordem. Essa é a tônica do nacionalismo brasileiro. Seja em Vargas, um nacionalismo suis generis, ou na ditadura militar, governo fantoche de interesses externos na Guerra Fria, a lógica do racismo escancarado ou de apego às tradições indígenas nunca foi adiante. Apesar do novo chanceler Ernesto Araújo ter feito em seu discurso uma referência ao “Anauê Jaci” da Aliança Integralista Brasileira, é um exagero acreditar que um grupo que faça ode a “tradições” indígenas e católicas vá ter alguma chance em um governo alinhado aos ruralistas e à bancada neopentecostal. O embate do campo conservador foi definido muito antes, quando Getúlio Vargas rechaçou de forma implacável o grupo liderado por Plínio Salgado. O próprio acabou por se enquadrar à Arena na época da ditadura militar, sendo admirado por muitos conservadores mas sem qualquer papel de destaque.

Mas a ordem por si só não mobiliza as massas. Aliás, nenhum ideal político consegue fazê-lo. Três elementos são minimamente fundamentais para arregimentar uma população em torno de uma ideologia: bons oradores, agitação cultural e uma estética. O primeiro elemento é bastante óbvio. Um bom orador consegue transmitir uma idéia de forma clara, convincente e reprodutível. A agitação cultural tem um efeito tanto de tornar mais palatável a ação política, levando a mesma para o entretenimento, o lazer e o bem viver. Já a estética eu pretendo me debruçar um pouco melhor nos próximos parágrafos.

Barrete frígio, bandeira negra, foice e martelo
A estética é um elemento importante para exercer poder e controle desde os primórdios da humanidade. Monarcas desde os primórdios da humanidade notaram essa necessidade de se sobrepor por elementos visuais, o que se pode notar desde as coroas egípcias ou greco-romanas até o luxuoso estilo de vida dos reis franceses de Versalhes, que precisavam demonstrar em suas festas o poder, do qual em última instância se tornaram reféns. A monarquia espanhola por outro lado, ao usar de um padrão estético mais negro, sóbrio, pode facilmente se adaptar às vacas magras do fim de sua era colonial mais intensa, sem perder no processo o simbolismo que mantinha e conseguindo sobreviver até os dias atuais.

Casal de Sans-Culottes
Talvez entendendo este tipo de lógica estética e afetiva (me falta conhecimento mais aprofundado para afirmar), os jacobinos e os sans-culottes franceses durante a revolução francesa tenham feito uso de forma intensa dos elementos de vestuário que lhes eram típicos, o barrete frígio e as calças grossas de algodão. É possível notar esta influência desde os anarquistas franceses do fim do século XIX, até durante o peronismo argentino, às vésperas da segunda guerra mundial, eventos nos quais o barrete frígio é colocado como exemplo iconográfico para representar o povo. Evidentemente que muito deste significado se perde com o tempo, se tornando, algumas vezes, apenas demagógico. No entanto, é notável o crescimento exponencial da representatividade deste elemento, pelo menos até meados do século XX.














Três representações do barrete frígio: estantarte jacobino//Imagem de propaganda anarquista//Estandarte peronista

















Posteriormente, a estética foi adotada por outros movimentos revolucionários. Em uma escala global, certamente a primeira manifestação bem sucedida nesse sentido foi a fixação da cor preta como o signo do movimento anarquista. As bandeiras negras se tornaram a identidade tanto para os próprios quanto para a imprensa difamatória, que adicionava ao imaginário a bomba. Ontem assisti a comédia muda Cops(1922), de Buster Keaton, na qual aparece em dado momento um homem que atira uma bomba em uma parada de policiais. O imaginário era vívido para além dos cidadãos mais politizados.
Mas foi com a Revolução Russa e a URSS que o padrão estético atingiu outro nível de uso. A foice e o martelo foi talvez o primeiro logo intencionalmente bem sucedido em larga escala, para fins políticos. Somado a isso, o exemplo anarquista legou a ideia da cor, agora vermelha, como o símbolo da classe trabalhadora. A imagem era usada pelo estado não mais como uma forma de hierarquizar, mas sim de trazer para a população a ideia de pertencimento e de identidade. Fala-se muito que os soviéticos impuseram sua vontade de forma agressiva à população, mas a verdade é que tal engajamento não seria possível na base da força, mas apenas através deste pertencimento. E este foi um aprendizado que outros grupos políticos não deixariam de absorver.

Os fascismos europeus
Outro filme que assisti recentemente foi o documentário A Arquitetura da Destruição, que conta como o nazismo foi levantado por meio de um forte aparato estético, e mesmo por artistas frustrados, como é o caso de Goebbels e do próprio Hitler, este um pintor mal sucedido. Para o diretor, o senso estético se antepôs à qualquer pensamento político mais estruturado, e neste processo é que se formou todo o ideal racista de sanear a raça ariana. O que fica claro é que Hitler pensou com detalhes em como trazer para o seu projeto de poder uma boa quantidade de signos, desenhos que remetessem aos seus ideais e pudessem ser facilmente reconhecidos. Funcinou. Até os dias de hoje, muitos se cativam pelo estético, e em um estado de frenesi que ignora qualquer traço de intelectualidade, abraçam o nazismo e seus filhos bastardos, vendo neles o sentimento de pertencimento. Porém, diferente da União Soviética, onde o desenvolvimento tecnológico e intelectual eram valorizados e priorizados, na Alemanha nazista a substituição da ciência por ideais estéticos e simbólicos era extremamente recorrente, sobretudo nas áreas biológicas.

Está lógica acabou por ser importada de forma veloz para todo o mundo. Desde os camisas pardas, milícias paramilitares nazistas pré-Reich, que foram copiadas por diversos movimentos nesse sentido ao longo do mundo (os integralistas tiveram os “camisas verdes”), até a simbologia do estantarte, tudo foi devidamente copiado, de maneira disforme, do imaginário visual comunista. Ouvi outro dia que “comunismo e nazismo são gêmeos heterozigóticos”. A verdade é que o nazismo no máximo pode ser considerado um clone defeituoso do comunismo: tenta copiar sua simbologia, mas carece absolutamente de uma substância teórica para além do estético.

Mas é interessante analisar como certos pensamentos estéticos podem ser entendidos nos dias de hoje como algo comum ao longo da história. O exemplo nazista é perfeito para isso. Devido ao uso massivo da cor vermelha (outra apropriação bizarra da extrema-direita), foi necessário uma desassociação intensa com ela na Alemanha, sobretudo para os jovens. É sobretudo por isso que o Sozialistische Einheitspartei Deutschlands(SED), principal partido da Alemanha Oriental, adotou o azul em sua simbologia. É em boa parte por conta desta influência que a seleção de futebol da Alemanha Oriental vestia sua emblemática camisa azul. Tudo parte de um longo processo de desnazificação. E foi eficaz. Pela ausência de algo semelhante na Itália, hoje é possível ver em qualquer grande cidade do país souvenires relacionados a Benito Mussolini, em uma descarada apologia à ditadura fascista

Seleção feminina de futebol da Alemanha Oriental, 1989
Faca na caveira

No Rio e acredito que ao menos nas capitais brasileiras, é bastante comum a prática por jornaleiros de colocarem adesivos à venda na lateral de suas bancas. Desenhos relacionados a fé, escudos de times de futebol, algum tempo atrás até a famigerada “família feliz”. E claro, imagens exaltando força física, agressividade, carros potentes e velozes. Transgressão às vezes, um garoto urinando. E o símbolo do BOPE. A faca na caveira. Nos adesivos, nas camisas, pintados nas paredes de academia. Cursos preparatórios para concursos que tem os elementos estéticos do Batalhão de Operações Policiais Especiais como mostra de força, poder, imponência. Mesmo batalhões de semelhante função de fora do Rio passaram a adotar o nome BOPE.


"Tira essa roupa preta que você não merece usar. Você não é caveira, você é moleque." A farda associada à poder, ordem e força.

Tropa de Elite, mesmo que em uma intenção crítica e artística, utiliza de elementos dos blockbusters policiais norte-americanos. Dos Estados Unidos veio a crítica que previu um futuro que, convenhamos, era até óbvio pra quem via de fora: “Tropa de Elite é fascista”, declarou Jay Weissberg da Variety. Mas parafraseando o filme alemão sobre o neonazismo, Éramos Jovens, Éramos Fortes. Padilha pode ser culpado sim pela sua irresponsabilidade, mas é injusto incutir uma intencionalidade. O próprio percebeu e tentou fazer um segundo filme para “explicar” ao público. O tiro saiu pela culatra, e o personagem que deveria representar Marcelo Freixo foi simplesmente odiado pelo grande público, que se identificava no Capitão Nascimento. Padilha criou um herói nacional — fascista — que ficaria no imaginário popular. O BOPE, apesar das inúmeras torturas e violações dos direitos humanos que o filme apresentou, saiu com a imagem muito positivada.

A elite intelectual pode dizer tranquilamente que o resultado é um sinal do fascismo latente no povo brasileiro. Eu no entanto discordo totalmente. O filme é um exemplo único de sucesso acidental. Fosse na tela Carlos Marighella ao invés do Capitão Nascimento, fossem ali militantes de direita e militares da ditadura ao invés de bandidos e ONGs de esquerda, o efeito teria sido o mesmo, mas convertendo uma legião de jovens ao comunismo. O baiano seria o herói de uma nova geração. 
Se existe algum aprendizado que temos que tirar com o fatídico resultado acarretado em Tropa de Elite, é que não existe mobilização política sem estética identitária. Não há como ganhar o coração das pessoas sem dar a elas um senso de pertencimento. Algo que boa parte da esquerda reclama no dito fanatismo petista, é oriundo justamente deste senso de pertencimento. E é o que faz o partido, mesmo depois de todos os prognósticos contrários, ainda ser o de maior fidelidade no Brasil. E é por isso que o partido foi o único capaz de fazer frente a um fenômeno tão avassalador, plantado em 2008, com Tropa de Elite. O fascismo brasileiro precisava de uma estética, e lá estava ela. O filme não despertou a agressividade em ninguém, tampouco deu base “ideológica” para o que colhemos hoje. Seu papel foi muito mais cirúrgico. A música tema, da banda Tijuana, toca em comícios de Bolsonaro. A farda, a arma, a faca na caveira, os gritos de “seu maconheiro”. Um homem forte, que não existe da forma como retratada, e que simboliza o que todo homem médio, ferido por não atender as expectativas da sociedade patriarcal, quer ser. Capitão Nascimento, tomando uma tonelada de remédios e gritando com a mulher grávida, é o ubermensch brasileiro.

Nariz

Anarquista, botafoguense, fascinado pelo jogo da política institucional e autor de 90% do que é postado no @testes_damassa.