Sabia que o funk de hoje é coisa de velho? - Testes da Massa

Sabia que o funk de hoje é coisa de velho?

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Tive um relógio Casio de borracha preta na minha infância. Era prático porque era digital, não me embananava com a posição dos ponteiros analógicos. Mas, aposentei-o pois, em algum momento, a peça passou a ser vista como brega. Pule dez ou doze anos e, agora, 2019, não existe nada mais atual que um desse. Ah, se eu tivesse guardado.

A moda, cê sabe, volta de tempos em tempos. Um quarentão que tenha deixado num local arejado a velha pochete vai brilhar pelas festas alternativas da cidade. Pois o funk carioca tá nessa. Nunca foi tão noventista. Talvez nem nos anos 90. Na moda, na dança, no comportamento e até no próprio som. O 150BPM é realidade, está aí fresquinho pelas ruas da cidade, mas bebe demais na fonte das montagens feitas há duas décadas.


Ouça os primeiros quinze segundos desse podcast do DJ Gabriel do Borel, de 2018.


Agora ouça os primeiros quinze dessa antiga montagem da equipe de som Pipo's, produto de algum vinil lançado entre 1993 e 1996.

Pegou alguma semelhança? Note a reutilização das velhas dublagens de filmes de faroeste, desenhos animados, coisas do tipo. Isso é tão antigo quanto um casaco do Chicago Bulls, mas, ao mesmo tempo, moderníssimo. A minha impressão é de que o funk carioca, pra evoluir, prefere voltar todas as casas e lamber tudo o que for de referência para, então, fazer algo novo.

O já consagrado passinho Lá no Meu Barraco é também a retomada de uma tradição: a dança em grupo. É completamente diferente dos passinhos individuais dos últimos anos, onde cada um se balançava de um jeito e rolava até batalha. Agora, a parada é dançar com o coletivo, como era antigamente.

Outra moda que voltou, para o terror dos relacionamentos, é usar camisa de time para ir para o baile. Beleza que isso jamais deixou de ser um comportamento comum entre a juventude periférica, mas agora as próprias marcas esportivas, como Adidas e Nike, estão apostando num design noventista.

Claudinho e Buchecha fazendo a dança 'Tchurururu', do sucesso'Conquista'

















Rapaziada no Baile da Colômbia

Portanto, amigo, quando quiser curtir um baile de favela, não fique acanhado de tirar da gaveta aquele moletom surrado, sua camisa do Botafogo de 1995 cheia de mofo, seu relógio borrachinha já baleado, mas ainda funcionando. É hora de se vestir conforme a moda.

Minhas dicas para sua semana ser melhor, apesar do presidente

Samba militante é o do Martinho da Vila. Esse nunca tombou pro lado de lá. O cara está prestes a fazer 81 anos, mas segue firme na luta pela cultura popular e justiça social. A música Bandeira da Fé, que dá nome ao álbum lançado no ano passado, é uma das mais lindas do samba. Foi composta pelo já falecido, mas também vilaisabelense, Luiz Carlos da Vila. Ouça essa obra prima!

"Vamos nos unir que eu sei que dá jeito
E provar que nós temos direito,
pelo menos à compreensão
Senão um dia, por qualquer pretexto
Nos botam cabrexto e nos dão ração"

Azul e Rosa são as cores da Rosas de Ouro, escola de samba tradicional de São Paulo. Visto o verde e o rosa de Mangueira enquanto escrevo esta coluna, mas prefiro o vermelho e o branco da minha querida Estácio de Sá. O jornalista Ariel Palacios fez uma interessante linha do tempo sobre o uso das cores nas sociedades ao longo da história. Dá um xablau.

Yuri E.

Jornalista carioca, foi colaborador de veículos como VICE Brasil, The Intercept Brasil e revista piauí. Atualmente, é repórter no jornal Meia Hora.