Politizando a escrita - Testes da Massa

Politizando a escrita

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Me deram uma responsabilidade enorme, que é deixar uma historiadora escolher um tema para escrever toda quarta-feira. Sem limites de palavras. Sem direcionamentos (escreva o que quiser!). Sem pressão para além de saber que o meu texto será lido por algumas pessoas (dezenas?!) que eu não conheço – e nunca dei um “oi” na vida!
E aí, você entra em pânico (mas finge que está tudo bem para a pessoa que te convidou não se assustar) e começa a pensar sobre o que escrever enquanto a temida hora de postar o texto no blog se aproxima. Nesse momento você já está xingando horrores (mulheres também falam palavrão, além de vestirem azul, Damares querida!) e tentando saber como o Haddad faz para ser produtivo no mundo acadêmico e na política google pesquisar.
Sem falar que como toda pessoa normalmente “xingada” de esquerdopata-feminazi-comuna, se espera que eu escreva sobre a conjuntura política atual (e a possibilidade de tristeza, depressão e álcool no sangue que o tema produz) ao invés de falar sobre as crianças maravilhosas do The Voice Kids (e quem não cantou junto com a música da Bela e a Fera passa longe!) ou a volta de Grey's Anatomy essa semana e todos esses novos casais maravilhosos para shippar (já aviso que sou #MerLuca, #Schmico e ai de quem falar mal do Karev!).
Caso alguém tenha se identificado com esses fatos, declaro que é óbvio que eu não sofri nada para escrever esse texto/crônica/não-análise política. Nenhuma pressão. Mesmo. Nem um pouco – inclusive até estou pensando em escrever algo relevante! Mas a preguiça é maior e entrar no maravilhoso mundo das redes sociais me levou a notícia do namoro da Patrícia Lélis com o biro-little e seu micropênis (referência ABNT: GOMES, Renata; 2019). Pergunta sincera: esse desabafo da Lélis é fato político ou somente um modo de exemplificar o molde da tão aclamada mamadeira de piroca? Ainda estou na dúvida.
Mas, como desespero de white people problems e da barbie é bobagem (só uma salsicha privilegiada para torcer para o atual presidente mesmo), vou continuar  a sessão desabafo. Afinal, desabafos são necessários em momentos de tensão e pressão como os psicólogos sempre dizem, e trazem depois um sentimento de alívio e ganho pessoal (lembrar do “desabafo” do Léo Pinheiro em frente ao Moro, que ao culpar o Lula pelo triplex ganhou de presente para o genro a presidência da Caixa Econômica esse ano - ou é só ver o novo cargo do filho do Mourão no BB mesmo).

E gente, é claro que eu tenho experiência com a escrita, afinal levanta a mão quem é de Humanas e nunca madrugou escrevendo (e lendo ao mesmo tempo) aqueles textos enormes na cama; dormiu sem querer, babou um pouco e tentou desesperadamente se esconder do professor para não entregar o trabalho no dia seguinte? (obs: qualquer possível semelhança com o Queiroz no hospital fugindo do MP e dançando na nossa cara é coincidência). Mas o importante é que no final você conseguiu! (Assim como a bancada ruralista finalmente conseguiu o comando das demarcações de terras indígenas e a Gisele Bundchen é uma má e feia brasileira para a nova ministra). 

E ao que parece, eu também estou chegando a alguma conclusão sobre esse negócio de desenvolver a escrita e um texto/crônica/não-análise política de mínima qualidade, passível de ir para o blog.
A primeira conclusão é que não pode ter muita enrolação, afinal quem gosta de ler um artigo que não fala a que veio ou transmite informações confusas e contraditórias? (bolsominions gostam, mas vamos deixar eles aproveitarem o vai-não vai do governo de 15 dias). A segunda é que deve ter um mínimo de razoabilidade e comprovação científica. Falar da inexistência de esquerdomacho ou das mudanças climáticas tá proibido (certo Itamaraty? Aliás, me comprometo a tentar ao máximo não passar vergonha escrevendo que o Descartes é o pai da “ideologia de gênero”, não é INEP?).
E por último, declaro para os devidos fins que alguns textos/crônicas/não-análises políticas meus podem não ter a intenção de falar sobre política, mas com as ironias que se apresentam na vida e realidade brasileira, é difícil não se politizar a escrita!





Aline Coutinho

Historiadora e feminista, é viciada em samba, maratonas no Netflix, "Irmãos à obra" e política - e espera escrever um pouco desses assuntos por aqui.