O Dezoito Brumário de Jair Bolsonaro: pitacos sobre conjuntura política e ideologia do empreendedorismo - Testes da Massa

O Dezoito Brumário de Jair Bolsonaro: pitacos sobre conjuntura política e ideologia do empreendedorismo

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Está na moda ler a conjuntura política brasileira à luz do clássico de Marx O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Até Rogério Skylab, o Roberto Piva que deu certo, andou postando a respeito de quão urgente é a releitura do ensaio do barba. Como o andei lendo recentemente e estou com a memória fresca, darei também meus pitacos levianos completamente desprovidos de rigor científico e embasamento teórico, recorrendo a comparações forçadas e anacronismos grosseiros a partir de citações descontextualizadas de edições eletrônicas de qualidade questionável.

            Como se sabe, em 18 Brumário, Marx analisa os desdobramentos da Revolução de 1848 na França durante o período da Segunda República (1848-1851), que culmina no Golpe de Estado de Luís Bonaparte. Escrito entre dezembro de 1851 e março de 1852, o texto foi publicado originalmente na revista Die Revolution, vindo a ganhar uma segunda edição apenas em 1869. Quer tenha lido ou não, é improvável que você jamais tenha ouvido alguma derivação das famosíssimas linhas iniciais do livro:


“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada.”

Sob um governo que abertamente conjura “os espíritos do passado”, seja pela retórica anticomunista da Guerra Fria, seja pela apologia aberta a algumas de suas figuras, é fácil entender por que tanto se tem voltado a 18 Brumário para analisar nossa conjuntura.  No entanto, interessa-me falar sobre algumas relações não tão óbvias em que a leitura do texto me fez pensar.

Se Luís Bonaparte é descrito por Marx como o “chefe do lúmpen-proletariado” de Paris, um perdulário medíocre e corrupto que só poderia se apoiar incondicionalmente num “rebotalho de todas as classes” composto por “vagabundos, soldados desligados do exército, presidiários libertos, forçados foragidos das galés, chantagistas, saltimbancos, donos de bordéis (...) - em suma, toda essa massa indefinida e desintegrada, atirada de ceca em meca, que os franceses chamam la bohême”, nem por isso o sobrinho de Napoleão deixava de contar com o apoio massivo de uma classe numerosa: o campesinato francês.  

Tendo a Revolução Francesa abolido a servidão semifeudal e transformado os camponeses em proprietários livres, foi o primeiro Napoleão durante o primeiro Império (1804-1814) quem “confirmou e regulamentou as condições sob as quais [os camponeses] podiam dedicar-se à exploração do solo francês que acabava de lhes ser distribuído e saciar sua ânsia juvenil de propriedade”. Assim, as camadas conservadoras do campesinato francês eram envolvidas por uma espécie de fetiche sebastianista:

“A tradição histórica originou nos camponeses franceses a crença no milagre de que um homem chamado Napoleão restituiria a eles toda a glória passada. E surgiu um indivíduo que se faz passar por esse homem porque carrega o nome de Napoleão(...). Depois de 20 anos de vagabundagem e depois de uma série de aventuras grotescas, a lenda se consuma e o homem se torna imperador dos franceses. A ideia fixa do sobrinho realizou-se porque coincidia com a ideia fixa da classe mais numerosa do povo francês.”

Fetiche este a obnubilar os próprios interesses de classe do campesinato que contrastavam com o bonapartismo:

“Mas o que, agora, provoca a ruína do camponês francês é precisamente a própria pequena propriedade, a divisão da terra, a forma de propriedade que Napoleão consolidou na França; justamente as condições materiais que transformaram o camponês feudal em camponês proprietário, e Napoleão em imperador. Duas gerações bastaram para produzir o resultado inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento progressivo do agricultor. A forma "napoleônica" de propriedade, que no princípio do século XIX constituía a condição para libertação e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se no decorrer desse século na lei da sua escravização e pauperização. E esta, precisamente, é a primeira das idées napoléoniennes que o segundo Bonaparte tem que defender. Se ele ainda compartilha com os camponeses a ilusão de que a causa da ruína deve ser procurada, não na pequena propriedade em si, mas fora dela, na influência de circunstâncias secundárias, suas experiências arrebentarão como bolhas de sabão quando entrarem em contato com as relações de produção.”

Também no Brasil hodierno assiste-se ao apoio massivo de populares a um governo com uma agenda profundamente antipopular, e grande parte da esquerda se pergunta atônita como é possível que tantas pessoas abracem um projeto contrário a seus próprios interesses. Muitas são as causas que podem ser buscadas, mas desejamos aqui traçar um breve paralelo entre a “ânsia juvenil por propriedade” que Marx identificou no campônio francês do século XIX e uma questão candente do capitalismo tardio: a ideologia do empreendedorismo.

Nos últimos anos, temos sido bombardeados por uma novilíngua corporativa cheia de anglicismos: é preciso ser “disruptivo” e “flexível”, ter “expertise” e “proatividade”, buscar a “inovação” e o “networking”. Pouco depois da reforma trabalhista feita sob o governo Temer, a propaganda do Santander nos anunciava zombeteira nossa “nova carteira de trabalho”: a maquininha de cartões portátil com que antigo assalariado deve agora “empreender”. Pululam por aí coaches e palestrantes motivacionais que mais parecem versões mais ou menos laicizadas do neopentecostalismo, prometendo o galardão terreno da ascensão social a todos quantos forem suficientemente “resilientes”, “trabalharem enquanto eles dormem” etc. Ao mesmo tempo, prolifera-se um discurso segundo o qual os empresários, verdadeiros Atlas plenivirtuosos que carregam o mundo nas costas, são muito onerados por impostos e direitos trabalhistas. A panaceia, dizem, é a liberalização completa das relações trabalhistas, para que todos possam “gerar valor” sem interferência do Estado malvadão. Que um tal discurso seja sustentado pelo Insper boy startupeiro não surpreende ninguém. A questão é que essas ideias têm se difundido cada vez mais entre pessoas que não são exatamente ricas, e cujas pendências ultraliberais na economia costumam acompanhar um conservadorismo de costumes.

Algo que se sabe sobre as diferentes línguas naturais é que elas fazem recortes semânticos da realidade que condicionam a apreensão do mundo de seus falantes. De forma mais geral, podemos refletir sobre como a linguagem em si e suas categorias são necessariamente perpassadas por ideologia. Onde quero chegar é: de quem se está falando quando se fala do “empreendedor”? Qual é a validade de uma categoria que pretende englobar tanto Elon Musk quanto Ricky Chesther, o ex-ambulante que virou garoto propaganda da maquininha do Santander e novo guru do empreendedorismo de palco?

  Uma matéria da Exame do ano retrasado (18/05/2017) nos informa que "71,5% dos donos de negócios no país declaram que sua renda mensal familiar é de até três salários mínimos”. Isto engloba o pequeno comerciante de bairro, o feirante, o vidraceiro, o tio do cachorro-quente. Quando foi que essas pessoas deixaram de ser o que sempre foram, trabalhadores autônomos, para serem reclassificadas como pares empobrecidos de João Dória e Luciano Huck? A parte perversa e insidiosa dessa recategorização, parece-me, é precisamente a forma com que essa parcela numerosa da população, rebatizada “empreendedora”, passa a defender encarniçadamente uma agenda política e econômica que interessa não a si, mas ao grande empresário. Num cenário de crises, concentração de riqueza e queda dos níveis de vida, vender a ideia de que todos podem vencer pelo próprio esforço é cada vez mais fundamental para a imperturbabilidade do status quo. Se é verdade que o próprio Marx nos alerta alhures (A Ideologia Alemã) que isso sempre ocorreu de diferentes modos ("As ideias da classe dominante são as ideias dominantes em todas as épocas"), parece-me que a teologia laica do “empreendedorismo” é um dos vetores principais pelos quais essa ideologia se propaga.

Procurar relações e homologias entre conjunturas políticas profundamente diferentes e temporalmente distanciadas faz correr o risco de produzir análises forçadas e ruins, especialmente quando servem de base para exercícios de futurologia. Mas o paralelo, por mais abstruso que pareça, entre o camponês bonapartista do século XIX e o "empreendedor" bolsominion brasileiro do século XXI talvez contribua para pensarmos a respeito de algumas questões na ordem do dia. Ou não.

Armênio

Mestrando em Letras e criador compulsivo de páginas no Facebook. Colabora nas páginas Gulag Canavieiro, Jovens Reacionários Defensores da Liberdade Combatendo o Mal, Sinistra Máquina de Memes e mais uma meia dúzia aí.