Negros de direita não são capitães do mato. - Testes da Massa

Negros de direita não são capitães do mato.

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Capitão do Mato

Sou uma espécie de “negro relativo”, um termo idiota que acabei de cunhar sem nenhuma reflexão, na falta de achar uma palavra melhor para descrever a minha situação dentro do colorismo brasileiro. De forma mais explicada: sou negro (aos olhos dos outros) dependendo de onde estou no mapa. Inclusive passei anos pensando que era branco, por conta disso. Hoje, morando no sul do país, essa confusão evidentemente não existe mais, e é o que me faz pensar no tema de forma constante, seja pelos perigos envolvidos, seja pelo orgulho adquirido.

Passei o último fim de ano em Porto Alegre, na casa de um amigo. Branco. Antifascista. Entre uma cuia de chimarrão e outra, conversávamos sobre tudo: futebol, música e MUITA política. Um dia pela manhã, o assunto que veio foi a escravidão negra no Brasil colônia. E antes que eu pudesse dar muito a minha posição, ele jogou uma bomba que me deixou atordoado. Ele comentava sobre os “capitães do mato”, os negros cativos que eram “selecionados” para serem o braço entre a casa grande e a senzala. Era o capitão do mato quem vigiava, delatava e punia, cabendo ao homem branco apenas o julgamento, salvo em casos onde a sanha psicótica era grande demais pra que ele deixasse outro torturar aquele corpo negro que o desobedecia.

E o que me deixou completamente atordoado foi a humanidade que eu, vítima do racismo desde a infância, não havia tido até então para tratar o tema. “Imagina o que é estar com um garfo que não deixa nem ele abaixar a cabeça. Imagina você ser oferecido de não passar mais por isso, a sua família não ser incomodada, sua mulher, sua filha não serem mais estupradas. Tudo isso em troca de você chicotear alguém. E se você não quiser, vai ter outro fazendo isso de qualquer forma. Você no lugar dele faria o que?”. Eu fiquei realmente engasgado. O paradigma do menino do tráfico que tem que escolher entre a frigideira ou o fogo, que eu sempre levei como um norte para a minha empatia, eu nunca sequer havia cogitado para alguém em uma situação muito mais extrema. 

A polícia do gueto

Não me recordo agora em qual filme vi isso, mas foi em um destes grandes filmes sobre a perseguição aos judeus pelo nazismo. Me lembro da cena: judeus vigiando judeus no Gueto de Varsóvia. Homens que se enchiam de marra, como todo pequeno poder de guarda acaba por criar em homens onde o caos impera. Fui ler um pouco mais a respeito: eram a polícia do gueto. Alguns daqueles massacrados homens, que se vendiam em troca não de privilégios, mas de castigos mais leves, eram, mais uma vez, o braço entre os que comandavam o massacre e os que eram esmagados. Ironicamente, aqueles homens me despertavam uma profunda raiva. “Traidores!”, eu me pegava dizendo. Mais uma vez, a empatia que sumia. E não era para menos, eram pessoas que viam seus semelhantes esmagados e reagiam diferente, mas…semelhantes?

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Polícia judia em Wegrów, Polônia

Vivemos em um país onde empregados não apenas querem ser patrões: eles defendem os patrões. Eu não imagino um funcionário estadunidense, em algum armazém da Amazon, entrando na internet e defendendo com unhas e dentes o patrimônio do Jeff Bezos. Mas eu e provavelmente você consegue muito bem imaginar o trabalhador de uma rede de lojas brasileira, que tem como dono um dos mais eloquentes defensores da candidatura do presidente eleito, defendendo seu patrão e o utilizando como defensor dos presidente eleito. Não à toa a loja é tão identificada com os EUA: parece que há sim no Brasil uma tentativa de ser mais ianque que os ianques. Acho que em algumas coisas conseguimos, infelizmente. 

Então, como esperar que em um país onde o trabalhador, mesmo protegido pela CLT e pela justiça do trabalho, se opõe à existência do ministério que cuida da relação entre empregador do empregado, que as coisas sejam diferentes? Onde a maioria da população pobre é negra e a maioria da população negra é pobre, em locais que muitas vezes não tem o mais básico dos suportes do estado? Como esperar que em meio ao caos suja algo diferente da luta básica pela sobrevivência, da barbárie que faz as pessoas escolherem entre a moral e a morte? Obviamente é muito diferente um violentado morador de favela apontando uma arma pro patrão explorador da mãe de um semelhante, daquele que agride ao próprio semelhante. Mas quando o barbarismo impera, quando o estado só aparece pra agredir, e o capital só aparece pra sugar a seiva da vida de cada um daqueles maltratados seres humanos, a unidade é testada. E que fique bem claro: na minha visão, ela passa no teste na grande maioria das vezes. As favelas não são antros de criminalidade, mas de criatividade, vida, solidariedade e amor pelo próximo, apesar da mídia tentar incutir em nossas mentes o contrário. Mas o que as favelas vivem, apesar de uma continuidade, não se compara ao que acontecia até a metade dos 1800 no Brasil(outra mentira a ser desmistificada: a maior parte dos negros cativos foram libertos antes da lei áurea).

“Eu nunca sofri racismo”

Thomas Sowell é o deus de ébano dos liberais. Não, não. Thomas Sowell é o grande escudo dos liberais para se oporem ao combate contra o racismo. Porque em última instância é isso. Confronte um liberal com a situação da segregação nos EUA. Ele muito provavelmente dará tilt, na melhor das hipóteses. Mas muito provavelmente ele defenderá a liberdade dos donos de lojas, hotéis e até postos de gasolina, de segregarem negros e brancos. Assisti a cinebiografia do Jackie Robinson, “42”, e isso era notável a cada momento. Alguns negros mesmo conseguem ver um bom sinal nisso. Killer Mike, rapper do duo Run The Jewells e um grande combatente contra o racismo, atenta ao fato de que a comunidade negra não consegue mais manter o dinheiro circulando entre ela própria. E realmente naquela época haviam cidades de negros de classe média. Mas eles eram odiados, e por vezes até massacrados, como foi no caso da Rebelião Racial de Tulsa, em 1921, onde uma comunidade negra bastante desenvolvida foi completamente massacrada por uma turba, majoritária, de brancos pobres. 
Thomas Sowell né? De 1965 à 1969 ele foi professor assistente na universidade de Cornell, no estado de Nova Iorque. No seu último ano na faculdade, houve um protesto de alunos negros, após a queima de uma cruz em frente ao dormitório de alunas negras. Eles ocuparam um edifício no local e exigiram anistia para os que o fizeram, além da criação de um centro de estudos africanos. Os policiais bizarramente acusaram os alunos de terem queimado a cruz de propósito. E o Thomas Sowell nisso tudo? Disse que eram alunos péssimos, e que ele próprio não havia experienciado tal racismo dentro da universidade.

Thomas Sowell

Thomas Sowell virou um autor best-seller. A jóia negra do liberalismo ianque. O que subvertia qualquer pauta dos movimentos negros e dizia que era o contrário. Que dava munição retórica para gente como David Duke. E o fazia isso de forma completamente fria, debaixo de um black power que faria dar erro em qualquer um que o ouvisse falar sem antes ver sua imagem. E vocês repararam nas datas? 1969. Sabe quantos anos Tomas Sowell tinha de diferença para Martin Luther King? UM. Apenas um. Ele estava sob os mesmos céus do mais popular líder afro-americano, um homem pacífico, cristão, que pregava a união entre negros e brancos e que hoje não é criticado nem por brancos da direita liberal. Thomas Sowell escolheu o caminho oposto, e nunca foi um grande entusiasta de MLK. Hoje, no entanto, grupos como o MBL já tentam aproximá-los.

A mim parece um desrespeito profundo chamar um homem como Thomas Sowell de capitão do mato. Que fique claro: um desrespeito aos capitães do mato. Comparar um homem que decidiu por conta própria escrever materiais que são lidos com prazer pro supremacistas brancos com outro que foi coagido para trabalhar para seu algoz é completamente inconcebível. Capitães do Mato são os jovens que são atirados no colo do tráfico. Estes que ajudam o algoz porque querem não são sequer negros da casa, como diria Malcom X em relação aos escravizados que exerciam trabalhos leves e defendiam o senhor de escravos. Eles são vítimas do seu próprio ego muito mais que de qualquer circunstância, motivo pelo qual esse tipo de atitude, essa sim, nos deveria despertar uma revolta.

Nariz

Anarquista, botafoguense, fascinado pelo jogo da política institucional e autor de 90% do que é postado no @testes_damassa.