Não pode abaixar a cabeça, viu?! - Testes da Massa

Não pode abaixar a cabeça, viu?!

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O ano de 2002 foi um ano pra nunca mais esquecer. E o motivo passa longe da copa do mundo ou qualquer outra coisa que mereça alguma comemoração. O que mais me marcou nesse ano, foi uma cena que jamais tinha visto, e que tenho tão clara e viva em minha mente, que parece que ela acabou de acontecer.

Era um domingo e meu pai tinha ido me visitar (minha mãe e ele são separados desde pouco tempo depois do meu nascimento). Quando abri o portão e olhei em direção ao seu carro, não acreditei no que via: ele estava sentado na calçada, uma mão amparando a cabeça e a outra enxugando as lágrimas. Minha tia conversava com ele, punha a mão em um de seus ombros, e ele não olhava nem pra ela e nem pra frente, só para o chão. Fui me aproximando aos poucos, bem assustada, pois era a primeira vez que eu via aquele homem chorando. Fiquei com medo de receber a notícia da morte de alguém ou de que ele mesmo estivesse com alguma doença e, com a voz insegura, falando baixo, perguntei:

- Pai, o que aconteceu?

Meu pai me olhou rapidamente e já voltou os olhos pro chão novamente, tomou ar e me disse:

- Sabe o que é filha...eu não sei o que fazer agora, com essa crise. Eu tinha algumas coisas que eu queria muito fazer por você e pelo seu irmão e agora eu não sei se vou conseguir. Eu deveria ter estudado mais, me aprimorado mais. E agora, que o “bicho tá pegando”, eu tô perdido, não sei o que fazer.

Eu fiquei olhando pra ele, segurando minha própria vontade de chorar e falei da quantidade de coisas que ele já tinha feito por nós, do quanto éramos gratos, que tudo ficaria bem e que eu tinha muito orgulho e admiração por ele, mas não tinha jeito: meu velho estava com depressão mesmo. A crise daquele ano, pra ele, tinha o efeito de um tiro numa ave em pleno vôo.

Pra quem não se lembra, o ano de 2002 foi uma catástrofe política e econômica para o Brasil. Foi o auge da colheita de frutos das políticas da era FHC, que pra mim tem como marca três fatos: o “acidente” com a plataforma P36 da Petrobrás, os apagões e meu pai com depressão.

Meu pai é um dos filhos do Brasil que, assim como seus outros seis irmãos, começou a trabalhar aos 8 anos, entregando leite. Já aos 15, começou como faxineiro de um laboratório, até que começou a se interessar pelo ofício e foi sendo promovido, até virar o melhor funcionário.

Depois de quase duas décadas, começou a questionar o salário miserável que ganhava (tinha três bocas pra sustentar), enquanto o patrão trocava de carro a todo momento e tinha até casa na praia. Pediu aumento e ganhou um não cheio de deboche. Ficou puto, se sentiu desrespeitado e injustiçado, e resolveu ter o próprio laboratório. Trabalhou dobrado, juntou o máximo de dinheiro que pôde pra comprar máquinas e fazer cursos, conseguiu clientes, comprou um carro, nos levou à praia, nos comprou roupas bonitas, me deu um patins no natal e, alguns anos depois, realizou o grande sonho de nos colocar pra fazer o ensino médio numa escola particular (em breve farei um texto só para relatar sobre como foi a minha experiência de fazer o ensino médio numa escola particular, depois de concluir o ensino fundamental numa escola pública de SP).

O meu pai estava num período de colher justos frutos, depois de tanta dedicação, mas quando a crise se agravou, aconteceu com ele o que sempre acontece até hoje: os mais vulneráveis rodam primeiro.

Atravessamos então, uma fase difícil, que como bem sabemos foi superada com a vitória de Lula nas urnas. Pouco tempo meu pai demorou para se reestabelecer e o sol voltou a raiar. Meu velho nunca mais foi pego por crise alguma e continuou lá, trabalhando como maluco, até se aposentar – momento em que ele diminuiu, se muito, um terço do seu volume de trabalho, porque admitiu que não tem nem mais idade para trabalhar das 5h da matina até as 20h.

Essa história, que era para ser algo passado e superado, foi revivida hoje, por mim. Quando meu pai me olhou e me perguntou “filha, e o trabalho, como tá?”, tudo o que consegui responder foi: “eu não sei, pai, tá estranho” e desabei a chorar, igualmente olhei pro chão, igualmente me acusei de não ter feito tudo o que poderia fazer e, de forma mais idêntica ainda, disse que tinha coisas que gostaria de fazer por mim e pelos outros e que agora, não sabia se dava mais tempo.

Agora, escrevendo estas linhas, eu olho pra frente e acho que tenho a mesma visão que meu pai teve em 2002 quando estava sentado na calçada: eu vejo nada. Um absoluto nada. Eu, que de certa forma repeti toda a sina do meu pai, começando a trabalhar como atendente aos 12 anos, faxineiras aos 15, secretária aos 18. A duras penas achei um lugar ao sol, que agora está sob fortíssima ameaça – e pra quem, como eu, é trabalhador em alguma estatal, essa ameaça está um tanto mais pesada.

Quando tentei buscar alguma linha de pensamento para desenvolver esse texto, eu pensei nas obras “cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, e “os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, pois são histórias que narram espécies de sinas familiares. Depois, pensei que nem fodendo que eu consigo desenvolver um textão cheio de estilo e estética, falando sobre as minhas próprias infelicidades.

Em seguida eu pensei em alguns textos que li, em que se fala sobre o governo Lula ter estimulado o consumismo e não a cidadania – ou qualquer bobeira que o valha. Daí, comecei a lembrar, com raiva, de um período da minha vida em que fiquei desempregada, fodida, morando numa kitnet minúscula, quente, e trocando o almoço pela janta.

Naquele tempo, eu tinha uma geladeira velhíssima, que me foi doada por um parente. E acontecia que, justamente por ser muito velha, aquela porcaria desligava sozinha. Me lembro de uma vez em que, depois de passar um fim de semana na casa do meu namorado, cheguei em casa e a maldita tinha desligado. Perdi tudo o que estava na geladeira. Depois de sentir o cheiro das carnes estragadas, sentei na cadeira e chorei o quanto pude. Sem dinheiro, com toda a comida que tinha acabo de comprar, estragada.

Quando comecei a “trabalhar registrada” e a receber um salário melhor, a primeira coisa que fiz foi comprar uma geladeira bonitona. E eu também tinha uma cama detonada, cujas molas estavam saindo pra fora do colchão e me machucando – e lá se foi mais uma grana que gastei com gosto: uma cama confortável, com um ótimo colchão. E também aconteceu de a kitnet em que eu morava passar por sérios problemas de goteira (chorei muito de vergonha e raiva por não ter um teto descente pra dormir). Então, outra coisa a que eu me apeguei bastante foi a morar com certa dignidade.  Isso tudo, sem falar no prazer em realizar o sonho dos seus familiares: leva-los a conhecer a praia, presenteá-los com uma TV digital (até este natal, na casa da minha mãe só tinha TV de tubo), leva-los ao cinema e etc. Voltei a pensar nos pequenos burgueses que saíram  com o tal papo furado e me senti menosprezada por eles.

E agora chego ao momento em que termino esse texto, sem conclusão nenhuma pra chegar, porque continuo vendo um absoluto nada a minha frente.

Ao me despedir do meu pai hoje, ele me disse o seguinte: “não pode ficar com medo não, viu filha?! Quando a gente fica com medo, a gente começa a ficar triste e daí começa a afinar pra esse bando de sacana. Então levanta essa cabeça aí e vamo que vamo!”

Dona Dirce

Tenho altas fita pra contar.