Desce daí, rapá, tá achando que isso aqui é teatro? - Testes da Massa

Desce daí, rapá, tá achando que isso aqui é teatro?

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Nanette
Bruno Godinho

Por causa da minha namorada (beijo, morena), eu assisti a um especial de um comediante chamado Bo Burnham. É um moleque magrelo, branco, provavelmente de classe média. Até aí, beleza, geral já pensa que ele provavelmente é um babaca. Mas aí é que tá: ele não é.

O especial dele na Netflix se chama Make Happy. No especial tem vários questionamentos sobre opressão de gênero, masculinidade tóxica, entretenimento fajuto. No fim da parada toda – infelizmente, spoilers – ele diz que o show dele é sobre “se apresentar” (na legenda da Netflix). No original, “it’s about performing”, ou seja, é sobre performance no sentido teatral, representar. E aí, bicho, a parada chega em outro nível.

Ele diz que achava que fazer um show sobre performance seria muito meta (tipo metalinguística, saca?) porque seria algo que quem não é artista, quem não vive de performance, de representar algo não sacaria. A conclusão dele é que, na real, não tem ninguém que não viva representando algo hoje em dia.

Ele diz que, nos EUA, a geração dele foi ensinada a se expressar, a ter coisas a dizer e, olha que legal, ninguém liga. Muita gente virou artista porque tinha um privilégio, como ele, mas aí você chega lá e é obrigado a repassar a mentira? Ah, não. A vida é uma merda. E ele sabe disso porque ele é privilegiado, bem-sucedido e infeliz.

E aí entra o capitalismo: o mercado criou as mídias sociais que só te incentivam a se expressar, vai lá mostrar tudo vida o tempo todo, representa aí um padrão de vida que, na realidade, você não tem. O artista e o público viram a mesma coisa, a mesma pessoa, aí você vai lá e ouve teus próprios áudios no WhatsApp, vê teus próprios stories do Instagram, do Facebook e do WhatsApp também.

O barato da parada, como ele diz, é tentar viver tua vida sem um público. Afinal de contas, quem é você de tão importante assim que todo mundo precisa saber da tua vida? Aliás, por outro lado, por que você acha tão importante saber, assistir à vida alheia?

Ele fecha o show com uma parada muito doida, que é difícil de saber se ele está, de fato, representando – se faz parte do roteiro – ou se a parada é espontânea. Mas, aí, eu já vou deixar para vocês verem se quiserem. O papo dele é que hoje a gente experimenta representações da nossa vida e da vida alheia, mas a gente não vive essas paradas. Porque você perde um momento da experiência quando você grava meia dúzia de stories. Você deixa de pintar a sala quando você para pra tirar uma selfie com o rolo de tinta na mão.
pao
Isso tudo me leva a um outro show de humor muito foda que vi, também na Netflix. Nanette, da Hannah Gadsby. Em resumo, o roteiro de Nanette é um humor autodepreciativo que se volta contra si mesmo: é um manifesto. A Hannah é mulher, gorda e lésbica. E ainda por cima é australiana da Tasmânia.

O papo dela, em resumo, é que pra que ela pudesse se inserir no mundo da comédia (dominado por homens, aliás) ela tinha que se submeter à desvalorização da própria pessoa que ela é. E ela faz uma puta construção de como ela, como mulher lésbica, era pressionada, por tudo e por todos, a se odiar. Numa parte, ela faz piada com quase ter levado uma surra de um cara; no final, ela conta a real: ela levou a surra porque ele percebeu que ela não era um viado, mas uma sapatão (“lady faggot”, como ela diz). Questão de gênero. Ela apanha por ser uma mulher que transgride padrões de gênero.
Ela, que é formada em História da Arte, conta como o Pablo Picasso, um gênio artístico, foi um baita de um filho da puta ao transar com uma garota de 17 anos. “Separe a arte do artista”. Isso, vai lá defender o Johnny Depp dando na cara da Amber Heard com vídeo e tudo só porque ele era charmoso há 25 anos.

No fim das contas, ela fala sobre como todas essas pressões da vida faziam com que ela ficasse cada vez mais deprimida, cada vez mais oprimida e se tornasse cada vez mais infeliz e, principalmente, ficasse com raiva. Só que aí o show de humor já acabou faz tempo, né. Ela tá se despedindo da comédia. Não tem como ela suportar essa vida apenas pra poder ser comediante. Transformar a raiva das experiências dela em representações da vida dela.
E aí ela diz que vai abandonar a comédia porque não quer que a vida dela siga sendo uma vida de raiva, mas precisa compartilhar a história porque quer responsabilizar o resto das pessoas pela história de vida dela e das demais pessoas que passam pelas mesmas coisas. E esse abandono, ali, é totalmente real. Você vê a força dela nos olhos 


Se alguém tira suas forças, não destrói sua humanidade. Sua resiliência é sua humanidade. As únicas pessoas que perdem a humanidade são as que acham que têm o direito de tirar as forças de outro ser humano. Eles são os fracos. Envergar e não quebrar, isso é uma força incrível.
disse a Hannah Gadsby.


Bruno Godinho - Historiador mediavalista,  professor e socialista. Tenta lutar pela educação, dentro e fora de sala de aula. Ocasionalmente pirata.

Convidado

A Testes da Massa traz eventualmente convidados com ótimos textos, para agregar ao nosso site.