Nixon, Bolsonaro e as rachaduras geográficas na política - Testes da Massa

Nixon, Bolsonaro e as rachaduras geográficas na política

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Richard Nixon em “Futurama” 

Essa última semana assisti o excelente documentário The Vietnam War, do cineasta Ken Burns, que tá disponível lá naquela famosa rede de streaming que apoia os nazis ucranianos. Uma idéia que foi repetida em alguns momentos por diferentes entrevistados do lado yankee me fizeram pensar muito: a Guerra do Vietna promoveu rachaduras terríveis na sociedade estadunidense, que não foram curadas até hoje. O caminho óbvio seria falar da eleição do Donald Trump, embora eu ache que talvez esse seja o melhor momento para resolver um mal estar que já se arrasta por décadas. Mas eu gostaria de voltar o olhar pra nossa situação atual, e os riscos de termos um Nixon tupiniquim.

A Estratégia do Sul
O sul dos Estados Unidos é uma região de legado conservador. Georgia, Mississipi e Alabama são três dos estados com casos mais emblemáticos envolvendo grupos como a Ku Kux Klan. George Wallace, lendária figura política do Alabama, foi o autor da frase que talvez alguns reconheçam numa paródia em Todo Mundo Odeia o Chris

“Segregation today, segregation tomorrow, segregation forever!” // “Segregação hoje, segregação amanhã, segregação para sempre!”

Antes de prosseguir, eu preciso fazer um brevíssimo resumo do sistema eleitoral para presidente nos EUA (só pra presidente, porque se fosse aprofundar hoje seria outro texto). Nas eleições de lá, cada estado tem um “peso”: soma-se o número de deputados federais mais o número de senadores (dois) de cada estado. Com isso, temos quantos votos cada estado conta na prática. A explicação e o debate em torno disso, deixo para outro momento. O que importa no momento para o entendimento é: vencer um estado é ganhar esse “peso”, representado pelos delegados eleitorais. Mais delegados, maior a chance de um presidente ser eleito.
A Southern Strategy, por sua vez, é a idéia de formar, expandindo a partir de um bolsão de estados com cultura segregacionista e que exaltam o legado confederado, uma maioria no colégio eleitoral. Apoiando candidatos mais ligados ao passado racista destes estados, e durante este processo angariando apoio de grupos como a KKK, o partido republicano foi consolidando um poderio cada vez maior no sul dos EUA. 
Estes estados, que anteriormente votavam democrata, foram mudando de lado sobretudo a partir de 1968, quando os democratas começaram a assinar as leis garantindo direitos civis aos negros. Ironicamente Nixon havia tentado o apoio de Martin Luther King em 1960, quando o mesmo foi preso às vésperas da eleição. Porém, por uma jogada política mais acertada, foi John F. Kennedy que conseguiu libertar o líder afro-americano. Esse evento acabou por sendo seminal na mudança de estratégia dos republicanos, bem como a derrota para Kennedy tornaria Nixon um político muito menos escrupuloso.
O mapa abaixo mostra bem a Southern Strategy, em 1970, já durante o governo Richard Nixon.

 BOYD, James. Nixon's Southern strategy: 'It's All In the Charts'. <Título do jornal>, New York Times, 17 mai. 1970. p. 215.

Porém, o resultado não foi totalmente o esperado. O Texas certamente foi o grande prêmio da Southern Strategy, bem como o estabelecimento de um “corredor vermelho”, mas houve perdas. O estado do Colorado, marcado no mapa como região projetada para se tornar um red state (“estado vermelho”, de voto garantido aos republicanos), berço do mentor moderno da KKK David Duke, hoje em dia é um dos maiores bastiões progressistas estadunidenses, onde casamento gay e o uso de cannabis são legalizados. Mas o maior problema mesmo foi o voto das minorias, que gradativamente se perdeu. Recentemente a Flórida, considerada um swing state (“estado pêndulo”, pode ir para qualquer lado) aprovou por plebiscito popular o direito para ex-presidiários votarem. Como a população carcerária nos EUA é desproporcionalmente negra, é previsto que a Florida talvez se torne um blue state, de maioria republicana. 

A Revolta do Capacete de Proteção

Capacetes de segurança enfeitados em apoio a Richard Nixon
Mas no início do texto eu me referia à guerra do Vietnã. Um dos eventos que o documentário colocou, pontualmente, foi o Hard Hat Riot. No dia 8 de maio daquele ano, a seção de Nova Iorque da AFL-CIO, principal central sindical dos EUA, organizou uma resposta violenta contra um protesto pacífico, que pedia o fim da Guerra do Vietnã. Essa reação se deu por conta de um racha interno no sindicato, entra uma ala radicalmente anti-comunista e outra que seguia apoiando o partido democrata, como era e continuou sendo a tradição do grupo. Posteriormente, o líder deste grupo revoltoso, Peter J. Brennan, foi nomeado secretário do trabalho do governo Nixon. Curiosamente, Brennan também foi um grande opositor das ações afimativas, o que reflete em parte as idéias de seus apoiadores.

O evento era um alerta de como o país estava dividido, e tal divisão parecia agradar Richard Nixon. Diferente de seu antecessor, o democrata Lyndon B. Johnson, que após o FBI não encontrar ligaões entre o movimento pacifista e a União Soviética abandonou essa busca, Richard Nixon viu na difamação de tais grupos uma ferramenta política. Os jovens hippies foram pintados quase que como bolcheviques, tentando minar o apoio interno à guerra e assim ajudar a implantação do comunismo em terras vietnamitas. 
E a estratégia de “dividir para conquistar” não parou por aí. A guerra às drogas foi estabelecida, com o objetivo de aumentar a violência contra negros, agora associados à heroína, e contra os hippies, associados à maconha. A partir dessa imagem, foi possível jogar o público contra qualquer tipo de manifestação política que desagradasse o partido republicano. Ao mesmo tempo, isso trouxe uma resposta cada vez mais polarizada da esquerda americana. Hoje são poucos os estados que podem ser considerados swing states, já que a grande maioria vota de forma bastante expressiva para um dos dois lados. Estados como Texas, que antigamente iam de acordo com o vento, hoje são vistos mesmo fora dos EUA como um dos principais centros do conservadorismo global.

Nordeste vs. Bolsonaro
Não importa muito o que números de capitais digam. Até a Califórnia, estado americano que não vota republicano pro Senado ou pra presidência há mais de 20 anos, e onde Arnold Schwarzenegger só se tornou governador ao defender em sua política de governo as chamadas energias limpas, tem áreas republicanas. O que importa aqui é muito mais como o governo do Estado vai conduzir o mesmo, sobretudo no Brasil onde os municípios não tem grandes competências legislativas. E nesse caso, o nordeste brasileiro é sim um bolsão.
Outro argumento contrário é de que, assim como em qualquer local do país, o nordeste também tem muito conservadorismo. Não penso ser um argumento válido, justamente dada a comparação com a história dos EUA: não é da noite pro dia que esses processos se estabelecem, mas sim em um período de décadas. 13 anos levaram o nordeste ao voto à esquerda. Resta saber o que 8, 12 ou mesmo 16 anos de governo ininterrupto deste espectro político fará com os estados envolvidos. 

Governador do Maranhão, Flávio Dino, se posiciona contra o 
Escola Sem Partido
Um sinal de que a cisão pode ser forte é como cada região está conduzindo a educação. O novo currículo nacional do Ensino Médio só prevê matemática e português como disciplinas obrigatórias, ao passo que este ano o governo do Ceará abriu concurso público com salários acima da média nacional e vagas para todas as disciplinas que antes eram obrigatórias, incluindo Filosofia, Sociologia e Artes. A longo prazo, a tendência é haver um distanciamento cada vez maior entre o nível educacional no nordeste e em outros estados, onde projetos como “Escola sem Partido” levam muitos jovens a desistirem da ideia de lecionar, com medo de represálias. Mesmo a mentalidade de certas regiões pode sofrer pesada mudança.
No entanto, gostaria de alertar que este texto nada mais é do que um exercício de reflexão, possibilidades e compreensão sobre o efeito que o divisionismo pode ter a longo prazo. Muita coisa pode alterar o destino político brasileiro, desde um Democrata mais a esquerda ser eleito à presidência americana, até uma ruptura violenta com o processo democrático por aqui, à direita. No entanto, é interessante se pensar nessa possibilidade. Um amigo pernambucano me fez um alerta, após a eleição de Bolsonaro: 

“O nordeste não é Stalingrado não.”

Bem, Stalingrado não teve muita escolha entre ser ou não Stalingrado.

Nariz

Anarquista, botafoguense, fascinado pelo jogo da política institucional e autor de 90% do que é postado no @testes_damassa.