MINHA HEROÍNA SECRETA VIROU BOLSONARISTA - Testes da Massa

MINHA HEROÍNA SECRETA VIROU BOLSONARISTA

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Na noite do dia 28 de outubro de 2018, quando o resultado da eleição foi anunciado, minha primeira reação foi olhar fixamente para o chão. Na cabeça, uma pergunta: “como foi que isso aconteceu”? Desde então, tenho tentado todos dias descobrir uma nova resposta a essa pergunta. Hoje dividirei a primeira. Ela é longa, mas acredito que seja fundamental conhecê-la, para que tudo comece a fazer um pouco mais de sentido:

No início dos anos 70, uma família de cinco pessoas: pai mãe e três filhas. O homem da casa, agente penitenciário e a esposa, professora. E não se sabe por qual azar do destino, ele decidiu que, passada a primeira infância de suas filhas, começar a trata-las do mesmo modo que tratava os presos, faria com que elas se tornassem mulheres obedientes e disciplinadas. E foi o que ele fez: diálogo, amizade e carinho foram trocados por ordens, desconfiança e espancamentos. Como sabemos, o agressor sádico não tem limites e, quanto mais o tempo passava, piores eram as surras e as ofensas em casos de “desacato”. E o hábito dos surtos de violência chegou ao seu ápice quando aquele homem decidiu engatilhar e apontar uma arma para a cabeça da filha mais velha. A filha “do meio”, numa atitude desesperada para salvar sua irmã, se jogou de joelhos perante o pai e implorou, entre soluços: “pai, papaizinho, eu imploro, pelo amor de Deus, não mate a minha irmã. Eu te imploro”. Em seguida, começou a rezar em voz alta. O pedido daquela pobre menina foi atendido e o homicídio não aconteceu.

Passamos agora para os anos 80, e a nossa pequena heroína agora é uma jovem mulher, que sorrindo vai ao altar casar com... um agente penitenciário. Bem, ao menos este não foi agressivo com os filhos que tiveram. Aliás, sempre foi um pai carinhoso. E ela tornou-se a esposa obediente e submissa que, afinal de contas, foi treinada para ser. E para curar os traumas dos sofrimentos passados, tornou-se muito religiosa, encontrando no catolicismo a resposta sobre o porquê de todos os seus sofrimentos passados e presentes: “Deus tem um plano para todos nós; Nada acontece se não pela vontade D’ele” etc. Ao que se percebe pela quantidade de remédios psiquiátricos que precisa tomar, os fantasmas do passado não a abandonaram, mas ao menos com a prática religiosa ela se sentia mais consolada e protegida.

Agora, vamos direto pra 2018 e nossa heroína, já avó de uma menina, está em plena militância para eleição presidencial de... Bolsonaro.

Como disse, antes de contar essa história para vocês, eu a contei a mim mesma, porque é como tenho tentado entender a catástrofe das últimas eleições presidenciais. Eu já entendi, por exemplo, que foi o pior que poderia nos ter acontecido, que existem muito mais fascistas do que imaginávamos (minha cidade está entre as dez do BRASIL com maior porcentagem de votos ao Bolsonaro), e que a nossa péssima qualidade de ensino favorece imensamente que sejamos manipuláveis. Entendi também que fomos pioneiros num esquema bizarro de fakenews que influenciaram demais as eleições. Entretanto, há algo um pouco mais profundo nisso tudo.

Eu coloquei algumas hipóteses para a minha heroína, para tentar mudar o desenrolar dessa trama toda e através desse exercício, eu pude voltar meus olhos a algumas obviedades, que por tantas vezes esquecemos, pelos mais diversos motivos. Vejamos:

1 – E SE naquela época, existisse nas escolas políticas públicas de proteção à criança e essa menina tivesse descoberto que NÃO É NORMAL ser espancada pelo pai? Será que ela teria a mesma repulsa que eu tenho do presidente eleito?

2 – E SE, ao invés de ter sido emocionalmente acolhida pela igreja, ela tivesse sido direcionada para um tratamento psicológico? Será que ela compreenderia os espancamentos que sofreu como crime e não como “um plano de Deus”? E será que com essa percepção, ainda seria capaz de sentir tanta simpatia pelo presidente eleito?

3 -  E SE aquele pai tivesse sido preso? Será que ela seria uma mulher submissa e obediente? Será que se a justiça tivesse sido feita, hoje em dia ela seria capaz de naturalizar toda a violência do presidente eleito?

Passado mais de um mês das eleições, quando leio as tentativas toscas de definir toda a gente que vota em Bolsonaro numa coisa só, quando eu vejo alguém fazendo uma análise que considera como tempo histórico os últimos 13/15 anos, é à histórias como essa que recorro pra tentar achar o mínimo sentido no que está sendo dito. E infelizmente, sinto informar que temos uma quantidade absurda de intelectuais de meia tigela, composta em sua grande maioria por gente da classe média tradicional. E são meia tigela por não entenderem nada da vida do povo brasileiro para fora de suas bolhas - lugar em que a dignidade humana tem mais garantias.

A história que contei, e que teve seu início no começo dos anos 70, se repete com diferentes personagens todo dia – ela é passado e presente.  Talvez, vai aqui uma hipótese, exista toda uma gente ANIMALIZADA, que não sabe sequer o que exatamente significa ser um SER HUMANO neste mundo e, a partir dessa falta de consciência sobre si mesmo, nasça a capacidade de ignorar ou relativizar tantos tipos de violência representados e endossados por Bolsonaro.

Com esse texto inaugural, proponho que nesse novo tempo sombrio que se aproxima, tenhamos mais coragem para ver de perto as feridas que formam parte significativa da nossa identidade. A tarefa é dolorosa, árdua e feia, mas é nosso único caminho. Em outras palavras: textões, vídeos e/ou twittes com frases de efeito que esculhambam evangélicos, católicos, além das velhas generalizações sobre o povo brasileiro (ignorante, corrupto, hipócrita, malandro etc) não somam nada além de likes e biscoitos. O que precisamos agora é repensar sobre nosso papel neste momento e para isso, será necessário ver e ouvir pessoas como a minha heroína, pois só assim saberemos de quais vazios o fascismo tem se aproveitado sordidamente.


Dona Dirce

Tenho altas fita pra contar.