Breves considerações sobre os "gilets jaunes" - Testes da Massa

Breves considerações sobre os "gilets jaunes"

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No fim de novembro, em um programa da emissora France 24 que discutia as então recém eclodidas manifestações dos gilets jaunes, o cientista político Roland Cayrol citava um estudo da Pew Research conduzido há alguns anos em cerca de trinta países. Em tal estudo, foi perguntado aos entrevistados se a situação de seus países se encontrava melhor ou pior do que cinquenta anos atrás. “Na maioria dos países, as pessoas disseram que a situação se encontrava melhor. Há apenas quatro países nos quais mais gente disse que a situação piorou em cinquenta anos: os EUA, que elegeram Trump, o Brasil, que elegeu Bolsonaro, a Itália, de Salvini... e nós, a França.” Risos nervosos do restante da bancada.
O pressentimento de que os CARRINCENDIANTES protestos franceses precipitarão a França nas mãos nodosas de Marine Le Pen, que já tenta cooptar a narrativa, encontrou eco rapidamente entre os brasileiros, ainda traumatizados pela miríade de desastres que sucedeu a empolgação das ditas “jornadas de junho” de 2013. De fato, há semelhanças: para além do fato de que se trata, em ambos os casos, de manifestações descentralizadas e desvinculadas de estruturas político-partidárias tradicionais, até a cor amarela escolhida para os uniformes nos dá calafrios. Ademais, em ambos os casos, demandas específicas ligadas à mobilidade urbana serviram de estopim para protestos com reivindicações difusas, quando não contraditórias.
Nesse sentido, vale dar uma olhada em uma lista de reivindicações do movimento publicada pela Franceinfo em 29/11 e atualizada no dia 2/12. Não obstante algumas propostas certamente lepenistas, como a de um “curso de educação cívica” para imigrantes, muitas das propostas da lista estão surpreendentemente à esquerda: redução a zero do número de moradores de rua, aumento do salário mínimo, estabelecimento de um "salário máximo" de 15000 euros, impostos maiores sobre grandes empresas, manutenção do sistema solidário de previdência com redução da idade mínima para aposentadoria, fim da política de austeridade, limites para aluguéis, indexação dos salários à inflação e até mesmo que "se cesse de remunerar os juros da dívida que sejam declarados ilegítimos” - a pauta da auditoria da dívida pública tão cara a setores da nossa esquerda.
Se é inegável que os protestos têm reunido pessoas de diferentes posicionamentos políticos, mais de um analista aponta uma insatisfação generalizada com a desigualdade, com a deterioração dos serviços públicos e com a queda dos níveis de vida que se verifica na França desde 2008. Além do anúncio do aumento de impostos sobre combustíveis, é importante lembrar que tudo isso acontece em um momento em que Emmanuel Macron tenta avançar com uma agenda de corte de gastos e austeridade fiscal, encabeçadas por uma reforma da previdência e uma reforma do seguro desemprego, que foi preciso colocar em pausa. É principalmente este o ponto em que quero me deter. Tenho visto muitos amigos estabelecendo uma homologia completa entre junho de 2013 e os protestos franceses. Segundo esta análise, a história se repetirá como farsa, e assim como o junhismo nos levou a Bolsonaro, os protestos franceses conduzirão à eleição de Marine Le Pen com a mesma inexorabilidade com que o angelus novus de Walter Benjamin é impelido para o futuro.
Embora uma vitória do Rassemblement National nas próximas eleições esteja longe de impossível, tal análise me parece açodada por estabelecer homologias que não existem entre: 1) França e Brasil; 2) Macron e Dilma; 3) Bolsonaro e Le Pen. Em primeiro lugar, além das profundas diferenças entre os dois países e suas sociedades, creio haver uma correlação de forças mais equilibrada entre esquerda e direita na França. Jean-Luc Mélenchon, por exemplo, candidato da esquerda radical que recebeu 19% dos votos nas últimas eleições, tem apoiado o movimento e busca disputá-lo com a extrema-direita. Em segundo lugar, se se quer encontrar equivalências com a política brasileira, tanto na forma quanto no conteúdo, Macron está muito mais próximo de um João Dória do que de Dilma Rousseff. Mesmo que os governos petistas não tenham rompido com certas premissas neoliberais dos governos tucanos, as reformas que Macron tenta implementar são muito mais agressivas que as que o PT fez ou se dispôs a fazer, incluindo a fase Levy do segundo mandato de Dilma. Causa-me perplexidade que setores da esquerda proponham que não se ataque um governo tão antipopular por medo do fantasma de Marine Le Pen. Finalmente, não só a essa figura, mas à extrema-direita europeia em geral se refere meu terceiro ponto de discordância. Diferentemente de Bolsonaro, que reúne elementos neofascistas a uma agenda ultraliberal, a agenda econômica da extrema-direita europeia é protecionista e antiliberal, e aí repousa um dos motivos de seu crescimento. Não é por acaso que os picos de popularidade de Le Pen se tenham dado após pacotões de austeridade e medidas como a reforma trabalhista do governo Hollande. A revolta contra Macron passa por uma insatisfação generalizada com o status quo da globalização neoliberal, para o qual a esquerda não tem conseguido formular um projeto de alternativa. A extrema-direita, em contrapartida, tem um.


Assim, embora seja necessária alguma cautela que nos guarde de EMPOLGAR com um movimento cujos futuros desdobramentos são incertos e possivelmente negativos, parece-me que seria um erro terrível cruzar os braços e deixar que a extrema-direita tenha o monopólio do discurso e da prática de oposição ao governo de um banqueiro arrombado por causa do trauma com as revoluções coloridas da Cambridge Analytica.

Armênio

Mestrando em Letras e criador compulsivo de páginas no Facebook. Colabora nas páginas Gulag Canavieiro, Jovens Reacionários Defensores da Liberdade Combatendo o Mal, Sinistra Máquina de Memes e mais uma meia dúzia aí.