O porquê de não vermos mais pipas no céu - Testes da Massa

O porquê de não vermos mais pipas no céu

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A resposta para o título desta coluna é que você está sem tempo para olhar pra cima. Explico.

No momento em que escrevo este texto, num sábado nublado no Rio de Janeiro, o Voz de Galinha deve estar cortando mais uma pipa no céu do meu bairro. Voz de Galinha é o apelido de Amaral, e este também é um apelido. Não sei seu nome verdadeiro. Pouco sei, na verdade. O que tenho de informação é fruto do que recebi no Zap. Você também deve ter visto um vídeo onde Galinha se filmava, berrando aos quatro ventos o quanto era bom soltando pipa. "Não bota pipa, eu sou pica! Eu não paro de soltar", anunciava com seu timbre pra lá de esganiçado. Logo depois chega um menino que parece ter metade da sua idade, e sacaneia: "Voz de Galinha, para de caô. Tu é um merda. Tu só tem gogó". Isso virou meme há cerca de um mês.



A cena ocorreu no largo do Estácio, região central do Rio de Janeiro. Ali, nos finais de semana e feriados sem chuva, uma legião de apaixonados por pipa se espalham pela praça. Tem quarentão, sexagenário com o RioCard pendurado no pescoço, tem moleque, menina. É um lindo espetáculo estético. Quando o tempo tá cinza, os jerecos e arraias colorem o céu. Se o céu tá azul, a coisa fica ainda mais bonita.

Eu sempre admirei a tradição de pipa do bairro, mas o vídeo do Voz de Galinha me despertou: há anos eu não sentava naquela praça. Ali tem uma estação de metrô, diariamente milhares de pessoas vão e vem, pouquíssimas param para respirar. Bem ali em frente ocorreu o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em março. Desde então, tomei ódio do lugar. Só passar já é pra lá de doloroso. Mas resolvi parar um dia, pra nada. Queria ver o movimento da cabeça dos pombos a bicar migalhas de pão. E então eu me senti completo como há muito não acontecia. Me senti bem pra cacete com minha cidade. Vi pipas no céu.

A vida do século XXI nos fez perder as miudezas do cotidiano. Você pode até achar que a tradição de soltar pipas acabou na sua região, mas, é bem mais provável que você é quem esteja passando com o olhar desatento, fone nos ouvidos, olho no relógio. Proponho que nossa geração volte a sentar nos portões de casa, pelo menos uma hora por semana. Precisamos sentir o cheiro da rua e nos apaixonar pelos seus personagens, como Voz de Galinha. Precisamos, como ele, voltar a achar lindo o baile de pipas no céu.


Essas são dicas para que sua semana seja responsa

Voz de Galinha tem um canal sobre pipa. Siga!

Parceiro de Tim Maia e Mano Brown. "Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver..." - você já cantarolou essa música. Na Rua, na Chuva, na Fazenda é do Hyldon, um dos artistas mais originais e proporcionalmente menos reconhecidos do Brasil. Ele lançou um álbum de inéditas em 2016, que tem a faixa "As Coisas Simples da Vida". É uma das mais belas letras que já ouvi na minha vida.


Yuri E.

Jornalista carioca, foi colaborador de veículos como VICE Brasil, The Intercept Brasil e revista piauí. Atualmente, é repórter no jornal Meia Hora.